11/20/2009

Dia da Consciência Negra


Hoje dia 20 de novembro comemora-se o Dia da Consciência Negra. Entre críticas e conquistas, entre resmungos e reflexões passa-se mais um feriado calorento aqui em São Paulo. Sou mestiço, mulato, afro-descendente. Não posso deixar o dia passar em branco, sem trocadilhos marotos é claro. Afinal, sou pouco luso por um avô, um pouco preto por uma avó e um pouco índio bugre de outro avô que veio do meio do mato das Minas Gerais. Impossível não pensar em quem marcou essa data: Zumbi dos Palmares. Hoje herói, construído a partir de um debate de anos, teoricamente morto em 1695. Cantado em sambas, por bambas e quilombolas dizem teve seus escravos.

É bom ter essa perspectiva em mente. O mundo não é povoado de santos. E a sobrecarga de sofrimento do passado, não limpa nossos pecados. O tráfico negreiro lá da costa da Mina, de Angola desembocando aqui no Brasil teve ajuda de tribos guerreiras no outro lado do Atlântico. Aqui me pego pensando, a luta, a conquista, e o debate das perspectivas do negro como elemento ativo na história desse país perpassa por uma série de montagens e discursos. Prevalece na perspectiva de luta, a opção de debate do Movimento Negro. Mas que por si só, não resolve as complexidades de inúmeras questões. Inúmeros forros tiveram seus negros. E aqueles homens e mulheres coisificados por um sistema brutal repetiram o modus-operandi de séculos de uma cultura escravagista. Nesse nosso brasilzão último a dar cabo da escravidão no mundo...

Essas perspectivas nos legam uma visão, que se coloca preponderante quando se analisa a problemática das questões. E se uma bizarra cordialidade sensual proposta por Gilberto Freyre foi aceita anos e anos, é por que serviu bem a determinados interesses. Ser crítico deve ser um compromisso de relevância para se discutir a questão do empoderamento, a luta contra o racismo que inúmeros vivem por dizer que não existe. Deve ser um norte para se ver a força criadora de tantos quilombos que se ergueram nessa terra adentro. Tem que ser nossa força para poder ensinar aos nossos alunos que a matemática surgiu no continente africano, não como exotismo, mas como elemento identificador.

Devemos lembrar de nossos preconceitos mais introjetados ao nos por diante da perspectiva de valorização da mulher negra e no debate de cotas (que de tão complexo aqui daria pano para inúmeras postagens). A história da escravidão no Brasil e da política racial, o descarte dos negros pelos senhores de engenho, dentro de um plano de “embranquecimento” da nação com a vinda dos trabalhadores imigrantes, se constitui também em uma história do poderio das elites e oligargas que nunca largaram o osso.

O que dói é a perspectiva de vários em buscar achar “O Negro”. Esse mesmo que não existe. Idealizado. Homogêneo. O que existe são “OS” homens e mulheres negros. Ativos, protagonistas, criadores, bem diferentes das personagens sem personalidade, nome ou rosto, da velha historiografia. E por mais que nosso país mestiço ainda tenha uma elite que se coloque como branca, isolando-se em seus casulos de cristal, somos maioria, independente de qual espaço você ocupe na barra identificadora de cores. Anote, ser negro é identificador social.

Ainda que insista em se tratar por minoria, o que se vê é que somos um país mestiço, de características múltiplas e infinitas polifonias. A luta, por restituição irá perdurar por anos a meu ver, com inúmeros detratores. O débito que a sociedade tem com os negros deve ser saldado de alguma forma. E eu não vou bancar o cientista-político-mágico de dar minha teoria. Por mais do contra que inúmeros se coloquem, essa pauta prosseguirá, e desses embates vem o refino, uma melhor elaboração.

A data é para se rememorar todas as trajetórias. Ver quantas Zezé Mottas viveram domésticas e escravas em novelas da Globo reforçando o estereótipo. Ver quantas Camilas Pitangas e Taís Araújo são protagonistas e destaques nas novelas atuais, por personificarem uma nova classe média. Sim, a luta perdura e o capital não é cego de deixar isso passar batido. O empoderamento e a conquista social são camuflados sob o signo do lucro, que no resultado da equação é “você é o que você tem”.

Essa semana tive a oportunidade de ver uma exposição do grande historiador Marcos A. da Silva, que relembrou um trecho de José Lins do Rego em seu livro “Menino de Engenho”:

“Restava ainda a senzala dos tempos do cativeiro. Uns vinte
quartos com o mesmo alpendre na frente. As negras do meu avô,
mesmo depois da abolição, ficaram todas no engenho, não
deixaram a «rua», como elas chamavam à senzala. E ali foram
morrendo de velhas.(...)O meu avô continuava a dar-lhes de
comer e vestir. E elas a trabalharem de graça, com a mesma
alegria da escravidão. As suas filhas e netas iam-lhes
sucedendo na servidão, com o mesmo amor à casa-grande e a
mesma passividade de bons animais domésticos.(...) A senzala do Santa-Rosa não desaparecera com a abolição.(...) Quando veio o 13 de
Maio, [ os escravos] fizeram um coco no terreiro até alta noite. Ninguém
dormiu no engenho, com o zabumba batendo. Levantei-me de
madrugada, para ver o gado sair para a pastagem, e
encontrei-me com a negrada, de enxada ao ombro: iam para o
eito. E aqui ficaram comigo. Não me saiu do engenho um negro
só. Para esta gente pobre a abolição não serviu de nada. Vivem
hoje comendo farinha seca e trabalhando a dias. O que ganham
nem dá para o bacalhau.”


Por mais que o texto seja a mais pura literatura (e que tenha sido editado por mim), perpassa um gosto bilioso de que “as coisas mudaram para que continuassem as mesmas”. O que o dia de hoje me propõe é a quebra dessas "continuidades" históricas.

Para não ficar no amargor. Quero listar uma porção de favoritos meus, nacionais e internacionais que me dão peso a pensar o que sou e de onde vim. Vai meu “Salve!” para:

Meus pais. Meus irmãos, cunhadas e cunhado (japa!) e sobrinhos. A meus avós que eu nunca esqueça da essência de ser o que sou. Machado de Assis, Coltrane, Cartola, Mano Brown e Racionais Mcs, NWA, Public Enemy, João Cândido, Nelson Mandela, Stephen Biko, Assata Shakur, Stuart Hall, Jamelão, Malcom X, Martin Luther King Jr., Rosa Parks, Black Panthers Party, Bob Marley, Rainha Zinga, Tony Tornado,Cauê Nascimento, Cristiano Vicente, Viny Rodrigues, Tim Maia, Jorge Ben, Luís Gama, Teodoro Sampaio, João José Reis, Billie Holiday, Nelson Triunfo, Múmia Abu Jamal, Bad Brains, Gil Scott Heron, Cruz e Souza, Geraldo Filme, Milton Santos, Confronto, Robsons da Bahia, Feijah, Dead Prez, Moisés da Rocha, Katon do Hirax, Spike Lee, Alex Haley, o grande e inesquecível Mussum, Originais do Samba, Living Colour,Vladimir do Corinthians, Robert Johnson, Chuck Berry, Little Richard, Ella Fitzgerald, Mistifier, Tommie Smith e John Carlos e á todos os irmãos e irmãs que continuam no combate.

Assim sendo, que esse feriado não vire mais um dia do índio. Que sejamos mais e mais Malês e Nagôs, revoltados. Sei que sôo até ingênuo fechando o texto dessa forma, mas que possamos ir a praia, e ainda assim façamos uma reflexão. Do que se ganha e o que se perde e de que posicionamento tomamos a cada passo. Se reiteramos velhos discursos ou nos permitimos novas perspectivas. Independente da nuance ou do que você responda no formulário do IBGE.

11/18/2009

you must fight to live on the planet of the apes !



Trabalho bem legal feito pelo Heath Killen, um ilustrador australiano cheio de criatividade. Conheça mais em madebyhk.com!

11/01/2009

A Uniban, a mini saia e os moralistas

Eu evito dar trela para debates acalorados que bombam via Youtube e noticialecos de tv, mas foi impossível não associar o que aconteceu no dia 30/10 último, como outras tantas questões importantes. O ensino no Brasil está falido. Fato. Triste e incontestável. E a cada dia creio que seja uma situação irreversível. Por mais que eu tenha uma visão quase conspiratória sobre (a de achar que isso serve a alguém e alguma coisa) o xinga xinga da Uniban só demonstra a lama educacional e pior, o estágio cultural de atraso que muitos estão sendo formados.

O que se mostrou nos vídeos não foi apenas o julgamento moral, foi a carnavalização do escárnio, da baixaria, do vulgar não na pessoa da garota em questão, mas do nível educacional superior. A Universidade (aqui falo de uma forma bem genérica mesmo) em muitos cursos tornou-se um rolê, uma balada, um celeiro propício para retardados, onde quem paga consegue um diploma. O déficit cultural é tétrico ao chegar na graduação e parece piorar com o correr dos anos. Essa extensão do colegial privilegia um ambiente onde o campo das idéias seja deixado de lado em contraponto a cursos tecnicistas de inclusão no mercado de trabalho. O macaco faz e não constesta é assim que sempre foi e assim que será.

Pior que as coisas me parecem embricadas numa percepção muito machista e atrasada. Quando dava aula me peguei pensando sobre a existência da “periguete”. Da garota do bairro, sexualmente ativa e decidida, que é boa para liberar as necessidades primais dos rapazes (e dela também), mas não é moralmente boa para se namorar segundo o que meus próprios alunos falavam. Trazendo isso na perspectiva do mundo do consumo e do capital, a profissão mais antiga do mundo, sempre foi hostilizada e perseguida, taxada de desviante e desvirtuante, mas sempre esteve aí. Os cruzados dos bons costumes sempre perseguiram essas mulheres sem nunca vencê-las. Elas estiveram na cama de estadistas, de papas, pastores, de maridos, de quem quiser que pagasse. Como se no mundo as ditas “opções” fossem reais e para todos. Como se tudo fosse simples como pegar um “jornal amarelinho” na segunda feira, 5 da manhã e esperar uma fila de 500 nomes para tentar uma vaga de emprego. Mais deprê ainda quando o discurso é introjetado pelas próprias mulheres. Que muitas vezes conclamam uma “unidade” de classe ou categoria, que não existe. Que fazem com que atirem contra o próprio pé. Não conseguem perceber que estão sempre em posição desfavorável, seja no mercado ou na vida. E que tal atitude só mantem as coisas como elas estão.

O que eu acho curioso é que o molde “exemplar” apresentado pela "cultura" vigente, é a mulher bonita, sexualmente atraente. De uma deusa do sexo que se prostre a um mundo privado de um marido provedor. Isso está nas novelas, nos programas de fofoca, nos sonhos de tantas que copiam cortes de cabelo de revista, e roupas de novela.

A garota em questão é o protótipo disso. E na verdade não espero grandes articulações dela, se de um lado a horda dos que ofenderam representam um déficit cultural alarmante, ela também representa a outra ponta desta questão. E aí que o problema toma mais corpo, pois nela percebemos a hipocrisia. De uma geração que chega ao século XXI, com valores recém saídos do XIX. A geração dos anos 2000, quer bens de consumo, de maridos provedores e esposas profissionais. Tudo que esteja fora desse ambiente moralista e arranjado é descartado. Como se a vida fosse simples e harmoniosa.

A garota é desejável. Talvez cobiçada pelos rapazes e invejada pelas colegas. Tem coragem (ou a falta de noção) de ser o que é e por isso representa o desvio e deve ser exposta a humilhação pública. Por mais que a moça seja tão tapada quanto a barbárie, o mais triste dessa história é ver jovens alardeando um discurso velho e atrasado. Começa-se com as mulheres. Depois passa-se as minorias. E assim caminhamos para o que? Para onde? Uma vida feito uma propaganda de tv? Anexo abaixo desse comentário algumas opiniões interessantes que estão no Youtube. Ouça o professor, o aluno, e o "teórico". É interesse pensar. Eu tomei minha posição. Escolha a sua.