
Fiquei dois dias pensando em escrever alguma coisa sobre o fabuloso show do Dilated Peoples que eu presenciei na última sexta-feira, na quadra da escola de samba Tom Maior. Não sabia ao certo sobre o que escrever, e não queria cair no senso comum, enchendo o evento de elogios, que seriam até merecidos, já que a organização foi realmente muito boa. Não queria também falar da performance dos Mc's de Los Angeles no palco, e do show a parte que é o DJ Babu, pois isso, seria chover no molhado. Então decidi escrever um texto curto, sobre um evento que ocorreu no show e que me supreendeu muito, a performance de Rincon Sapiência.
Muito vão se perguntar, "Mas por que escrever sobre um artista que nem era o mais importante da noite, e que cantou apenas uma música no evento?"
A resposta é simples, porque na maioria das vezes podemos ter uma percepção mais apurada de uma ação social, quando analisamos a história menor, ou seja, aquela que aos olhos do grande público é a menos importante.
Durante as apresentações iniciais que antecederam a grande atração da noite, alguns Mc's subiram ao palco e mostraram tudo aquilo que o público queria ver, Rap de verdade, com mais ou menos swing, mas ainda assim Rap. Tudo era extremamente Rap, as roupas, as rimas, as posturas no palco, eram todos se apresentando dentro de uma mesma linguagem, fazendo aquilo que o público presente aguardava, como um aperitivo para o prato principal. Eis que um sujeito vestindo calça skinny amarela e camisa cor de laranja, surge no palco ao som de um batidão, ao melhor estilo funk carioca. Estéticamente, poderíamos descrever como uma mistura de Mr. Catra com a banda Restart, muito diferente de tudo aquilo que estava acontecendo naquele local. E assim prosseguiu a apresentação de mais ou menos 4 minutos, Rincon Sapiência cantou funk carioca, usou batida inspirada no miami bass, mas com letras que fugiam totalmente da temática funk carioca que estamos acostumados, nada de popozuda, tchutchuca, ou coisas do tipo, era a mensagem e as idéias típicas do Hip Hop, inseridas numa outra linguagem periférica, o funk, e se apropriando de um visual extremamente pop. Uma loucura!
É óbvio que uma exposição dessas não deixaria seu autor impune. Mesmo que aparentemente a grande maioria das pessoas no evento, pareceram não se importar muito com o que acontecia, uma minoria significativa, se manifestou em relação ao fato, através de vaias e gritos hostis contra Rincon. Alguns diziam: "Que merda é essa?", "Canta Rap nessa porra filho da puta!", "Tá pensando que tá no Rio!", entre outras coisas. A pergunta que me veio à cabeça na hora foi, como um movimento que propõe uma revolução ou reforma social e pessoal, que se autoproclama a voz dos injustiçados, pode ter uma postura tão agressiva em relação aos seus pares e pior do que isso, tão conservadora? Não que eu ache que um movimento descentralizado como o Hip Hop, seja composto de forma homogênea, não é isso. Mas eu queria acreditar que com 30 anos de história, e de produções artísticas em diversos campos da cultura, algumas pessoas envolvidas com o Hip Hop já tinham aprendido que as coisas só mudam, evoluem e se transformam, se pudermos experimentar dentro do nosso campo de ação. Imaginem se Caetano Veloso e os tropicalistas não tivessem experimentado intencionalmente a guitarra elétrica no fim dos anos 60 para revolucionar a MPB. Ou se Ornette Coleman, John Coltrane, Sun Ra entre outros, não tivessem experimentado a liberdade musical e a improvisação dentro do Jazz. E se o Kraftwerk não tivesse experimentado fazer música só com sintetizadores e dispositivos eletrônicos, o que aconteceria?
As manifestações culturais precisam de experimentação, precisam de gente que enfrente alguns tabús e idéias já consolidadas, para que elas possam ter algum significado real, para que elas possam realmente ter algo de interessante e provocador, para nos fazer pensar um pouco. O artista Rincon Sapiência, não fez nada além de incorporar outros elementos já conhecidos, e até mesmo próximos ao Hip Hop, não foi nada demais, mas já foi o suficiente para acender a chama conservadora dos ditos "reais" do movimento. Cultura sem troca de informações, influências e misturas, é cultura morta, não serve para nada, e fica restrita ao gueto ideológico. Espero que daqui para frente, mais artistas de Rap sintam-se livres para experimentar outras concepções estéticas, misturar, e virar tudo de ponta cabeça, para que o Rap seja realmente o que ele sempre prometeu ser, uma ameaça para o status quo.





