8/31/2009

Comentário (pós?) Moderno: "A Onda" e seu reverso

Semana passada, tirei um dia para ver “A Onda”, filme que conta a história (baseada em um acontecimento real) de um professor de ensino médio alemão que, para ilustrar como se porta um regime autocrata, propõe uma dinâmica de grupo onde simula um sistema similar na sala de aula. O resultado, no filme e na realidade, foi catastrófico. O filme é interessante, pois trata do tema Nazismo dentro de uma perspectiva contemporânea e bastante madura na atual sociedade alemã, bem como a problematização a respeito da relação aluno-professor e os limites éticos e morais desta.



Para ver o filme, chamei alguns alunos. Dou aula no ensino médio, e o tema da Segunda Guerra Mundial é cobrado no currículo básico. Alguns alunos foram e assistiram o filme, e em meio a zona que criaram na sala de cinema, acharam o filme interessante. Viram o conflito e talvez até se colocaram no lugar daqueles que apareciam na tela: um grupo é formado, surge a identidade, a camaradagem. A noção de propósito, o “meaning” na palavra em inglês, emerge. A liderança aponta uma direção. Tudo é possível. Em nome do que está dentro, toda a extemporaneidade é simplesmente descartada. A existência de um é a não existência do outro. A dualidade política tão bem explicitada por Schmitt, Foucault e Agambem.

Saí do cinema e pensei: isso é possível? Um professor, hoje, num país como o Brasil, que teve, como a Alemanha, a experiência com um governo autocrático (de uma maneira bastante diferente, que fique bem claro) teria a possibilidade de criar tal percepção em uma sala de aula? Estes o tomariam por líder, se assumiriam enquanto um grupo único e fechado e se aglomerariam em torno de algumas idéias como união, força e disciplina?

Com esta pergunta, fui a escola disposto a ver qual é que era a real. E no meio do debate com os alunos, percebi como “A Onda” era um filme anacrônico. Jamais aquilo que aconteceu no final de 1968 nos Estados Unidos - e foi recriado na Berlim contemporânea - poderia acontecer. Não poderia, simplesmente, porque a internet mudou a sociedade. E esta resposta também tem sua dualidade, para o bem e para o mal.

O lado positivo, e talvez, o maior ganho no que se refere a educação política, mesmo que esta não seja percebida enquanto tal, é a idéia de autonomia. Os jovens de hoje jamais seguiriam qualquer tipo de liderança de maneira tão simplista: isto porque nada que alguém diga pode soar tão interessante: em nossa sociedade, o “eu” é que possa a ordenar suas próprias prioridades, podendo buscá-las como e quando quiser.

A internet é uma ferramenta mágica, pois ela cria um mundo onde todos criamos conteúdo, e sendo assim, a idéia de “autoridade”, ou seja, aquele poder que cria uma relação de legitimidade, é perdida, ou melhor, pulverizada. Quem é o especialista, o mentor ou o professor? A idéia de autoridade em um ambiente pulverizado transforma todos em iguais. Porém, esta também apresenta seu reverso, onde vemos o fenômeno “bolhas de autoridades” sem conteúdo, que simplesmente alcançam determinado status devido a uma lógica intrínseca ao meio. Este é outro debate.

Mas o argumento central continua inalterado: a “autoridade”, em toda suas instâncias, sofre uma seria incapacidade de penetração devido a descentralização da informação e a possibilidade de criação e ordenamento autonomos. O que importa é que a internet muda as relações que temos com conteúdo e idéias: se antes esperava-se a “autoridade” informar definir e esquadrinhar o que era relevante, bom e correto (e esta autoridade tinha esse poder por ter a informação, cultura e acesso), no mundo de hoje, o acesso e a informação são de todos. Sendo assim, não se precisa mais da “autoridades”, “criticos”ou mesmo “líderes”. Eu não ouço mais rádio comum, onde discjockeys escolhem o que vamos ouvir; as rádios online se adequam ao meu gosto. Lastfm, blip e o gethighnow.com estão aí, fora as ferramentas de RSS, e agora o Twitter, que dá a possibilidade de eu “seguir” coisas do meu interesse para que estas informações venham a mim. A cultura, fator relevante que foi colocado fora da equação perde importância com as ferramentas de busca: sendo a informação múltipla, instrumentos de filtragem permitem, com relativo sucesso, chegar-se ao objetivo proposto, com razoável nível de eficácia.

A outra razão é prima-irmã desta primeira, seu complemento e oposto. Havendo a quase-impossibilidade da criação de uma relação de autoridade nos moldes como apontamos aqui, o que é capaz de convergir para a criação de conhecimento? Como podemos superar a sedução da super-informação e nos ater a temas que mereçam especial atenção? Só uma quantidade absurda de grana e mídia é capaz hoje de criar audiência para algo específico. Mas mesmo esta grana já não parece mais suficiente: passamos cada vez menos tempo diante da televisão, nos apegamos as coisas de maneira cada vez mais superficial e o mundo torna-se cada vez mais rápido e dinâmico. Somos uma sociedade icônica, formada e ordenada por ícones. Mas quem tem todos, não tem nenhum. Michael Jackson foi o Rei do Pop. Provavelmente o último. Quem pode hegemonizar tanto a atenção em um mundo como o nosso? A indústria pop e o cinema estão se reinventando, e se esta indústria não é mais capaz de criar um super-astro, quem pode? Esta perspectiva a principio parece mais que positiva, mas ao mesmo tempo, dá espaço para uma eterna e indivisível mediocridade. Podemos nos acostumar com o pouco, com o raso.



Essa saturação cria um ambiente onde simplesmente a letargia torna-se uma profecia auto-realizável. Se é impossível a relação de “autoridade” nos termos colocados aqui, é também factível o marasmo da superficialidade, que cria apenas espelhos d'água. Ou seja, cada vez mais a idéia da aparência é a tônica, visto que superá-la torna-se dispensável, ou melhor, perigoso. Num mundo que cabe em 140 caracteres, se alongar pode ser uma espécie de suicídio intelectual. Em que medida a superação da noção de autoridade não está também acabando com a idéia da paciência, da minúcia e da atenção? Ao mesmo tempo em que destruímos o deus da “autoridade”, parece que destruímos também nossa capacidade de superar o que a principio não nos seduz, não nos entorpece não nos dá prazer. A idéia de ludismo, da facilidade, aparecem como nosso denominador comum: o que não me traz o que busco de maneira imediata, está fora. O ato de aprender, neste sentido, se torna quase pífio. O prazer contido ali é outro: existe mas está nas entrelinhas. E sendo assim, o mundo, em suas profundas desigualdades, continua fechado, e fadado a uma reprodução que se sustenta pela inércia.

O anacronismo de “A Onda” esta no fato de sermos agora uma sociedade sem líderes, e sem propósito. A idéia de algo que nos torne um, que aponte um caminho foi dinamitada da nossa mentalidade. Porém, ao mesmo tempo, nosso referêncial perdeu-se numa teia infinita e nossos parâmetros parecem nos levar a um processo cada vez maior de alienação. Superá-la requer suor. E quem está disposto a isto agora? Para o bem e para o mal, a idéia da massificação é passado. Assim como o sonho Hippie, esta tudo terminando como em Altmont.

8/24/2009

Burning Love - Demo 2009

O hardcore-punk é uma comunidade mundial. Comunidade também no sentido de que se você tem uma comunicação mínima, tem hospedagem garantida em vários lugares do mundo. Apesar dessa rede solidária, não podemos esquecer das diferenças estruturais, para quem se propõe a fazer música independente e alternativa no primeiro mundo, e no nosso caso no terceiro. O espaço da postagem não permite grandes elaborações acerca do tema, mas é bom ter isso em mente ao ler um texto que se propõe a falar de alguma banda.

Resumo da ópera: Começar tocando com Gibson, Marshall, Zildjan sem ter de passar por Tonante, Ciclotron e afins. Ou ter um cachê mínimo, por apresentação por menor que seja o lugar, pois existe um nível cultural do público que compreende que seu esforço de apresentação deve ter uma "restituição mínima", não aquela garrafa dágua, ou esquema palco-tomada-e mais nada que conhecemos por aqui.



Indo ao que interessa o Burning Love é uma banda canadense. Ela tem a sua frente o vocalista Chris Colohan, que desde de meados da década de 90 vem cantando em bandas que eu acompanho, tanto por afinidades musicais como por ideários políticos específicos. Dê um giro pela net, e busque as bandas Left for Dead (só não se engane com homônio death metal), Ruination e Cursed. Cada uma a sua maneira remete a uma musicalidade que traz a mente o hardcore clássico dos anos 80.
Por outro lado o Burning Love, nessa demo disponível para download gratuito, apresenta um som simples só que com uma veia mais rock. Tem um quê de MC5, de Stooges, com guitarras sujas e afinação baixa. Eu aprecio muito a faixa Money Shots, pois a linha de voz e os riffs remetem diretamente ao Black Flag, mas mantendo muita personalidade. A demo está disponível para download liberado e gratuito aqui.

Você deve estar se perguntando agora por que comecei com todo esse bla bla blá de diferenças estruturais. Bom, o Burning Love é um exemplo claro das diferenças entre o modelo de "faça você mesmo" que existe nos países desenvolvidos. A banda em alguns meses de existência já organizou algumas pequenas tours, pois existe um meio e condições para isso. Tudo isso, sem pretenção de ingressar a indústria musical. Mantendo o bom e velho anseio de ensaiar, compor, tocar e gravar. Ouvir essa demo é um presente não só pela boa música, mas pelas reflexões que podem causar.

Serviço:

8/18/2009

Imortal Sarney. Para os diabos! É o Marx, po!


Estudo política. É o que que tenho feito profissionalmente já há alguns anos. Tento estudar, e tento ensinar... aliás, estou tentando tentar ensinar. Mas é assim. Como já disse aqui uma vez. Leio, escrevo e falo. Só. Não sei fazer mais muita coisa. Me restou as Ciências Humanas e seu sub-item, a Ciência Política. Que de Ciência, em seu sentido estrito, tem pouca coisa. Não passa de tentativa-erro e erro. ou quase. Interpretação e quiromancia.

E num dia desses, tomei uma decisão. Assim mesmo. De bobeira. Comecei a reler algumas leituras anteriores de teoria, em especial, uma literatura de cunho radical, voltada a crítica do capitalismo, da democracia e do Estado. Comecei pelo velho barbudo Marx e fui então rever o “18 de Brumário de Luiz Bonaparte”, texto em que o autor, através de uma perspectiva historiográfica baseada em uma análise dos atores e do contexto, busca resumir uma análise precisa a respeito do resultado das revoluções e embates que ocorreram em 1848 na França.

No meio do texto, como que de sopetão, algo me pareceu familiar. De repente, lembrei de Sarney e sua corja. Lembrei do PMDB, lembrei do proselitismo. Lembrei de como é que no Brasil, a esfera pública é tratada como se fosse propriedade privada. E quase que num sonho, surgiram uns comichões a cerca do processo político-democrático no Brasil, em sua maneira convexa, é uma caixa de pandora: impossível de ser aberta por qualquer uma das teorias e correntes político-filosóficas disponíveis, nem mesmo o marxismo. Resolvi, de teimoso, postá-lo aqui. Não por sua qualidade ou originalidade. Mas sim por..., porque mesmo?

Mas como? Como??? Como um texto sobre Napoleão III podia ter passagens que me remetessem diretamente para o agora, para o Brasil, para Brasília, em 2009? Resolvi então separar duas passagens para buscar alguma resposta sobre o agora. E, mesmo com medo da redundância e da obviedade, vou colocá-las aqui.


Antes só?? Não... sempre bem acompanhado


Marx salienta uma particularidade na história humana: o aspecto inexorável do passado, explicitado nessa passagem: “Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem, não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, e sim, sob aquelas com que defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime, como um pesadelo o cérebro dos vivos”. E aqui, me peguei pensando em Sarney. Vejam só: Sarney foi presidente acidental do Brasil entre os anos de 1985 a 1990. Seu partido era um reformado PMDB, advindo das entranhas de um MDB que era o único partido aceito enquanto oposição durante a ditadura militar. Na época, Jânio Quadros era a figura proeminente: democrata aguerrido que a pouco havia comandado a campanha pelas eleições diretas. O PMDB neste contexto era respeitado, e em suas fileiras, contava com as principais forças políticas do Brasil. Porém, a estrutura político administrativa do país pós-1982 - e especialmente pós-1988 com a proclamação da Constituição da redemocratização - criou um sistema paradoxal, onde as forças políticas tendem sempre a um perene processo de inversão de valores. O centrão é o novo (D)eus. E aqui, cabe de tudo no balaio, em que os gatos já saíram há tempo, com medo do rebostálio. Sarney estava lá, desde o princípio. Ajudou a moldar a identidade fisiológica do PMDB como “O” partido de centro. Sendo assim, tornou-se a puta mais badalada da zona, o fiel da balança. Através de seu tamanho incomensurável, e de seus tentáculos (testículos?), tornou-se um mastodonte. E através da troca de favores, se espraiou.

E na história da (des)consolidação do processo democrático brasileiro, PMDB e Sarney fazem sua história. Se o peso dos mortos está sobre os ombros de Sarney, é porque estes na verdade sustentam o circo e ornam o picadeiro. E, assim, os palhaços fazem nossa história, de acordo com seu contexto, nem mais, nem menos.


A farsa da Tragédia


Marx, na sequência, nos dá outra dica. Para o barbudo, os “fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. E aqui, a piada torna-se quase óbvia. Mas por mais engraçado que pareça, devemos virar o autor do avesso: Sarney - nosso Napoleão III do coronelismo tupi - apareceu pela primeira vez como farsa, e agora como tragédia. Sarney não foi eleito em 1984. Subiu aos palcos do poder pelo ocaso da morte súbita de Tancredo, às vésperas da posse. Com seu bigode espesso, agarrou a oportunidade com fervor. Dalí, fez o trampolim, vestiu as sapatilhas e bailou. Consolidou um poder feudal no norte do país. Como no paraíso, fez-se a luz e as trevas. O Alpha e o Omega. Criou dinastia.

Mas agora, seu papel enquanto tragédia se consolida em um réquiem fajuto. Ver Fernando Collor, Lula e Sarney lado a lado, tem algo trágico. Um certo humor, uma certa lágrima. Mas não. Não as minhas.

Mas que é isso? Hoje, por acaso, não foi o próprio Sarney quem disse que não deve explicação alguma de nada? Ah! O início é o fim, que é o início. Eterno Retorno.

F. Nietzsche?

Talvez. Ou só ele?

Mesmo nas frases soltas e no anacronismo, o velho alemão acerta. Não com a resposta, mas sim, com o método.

Internet, vídeo cassete, os carro louco...


A continuação da rima da música Negro Drama dos Racionais Mc's diz: "Atrasado eu to um pouco (...)" E muita gente realmente está atrasada socialmente ou mal adaptada em relação ao uso quando o assunto é tecnologia. Não entrarei na questão acesso a tecnologia, mas neste texto tratarei do uso da tecnologia, mais específicamente da relação que os usuários da internet estabelecem com o mundo real-virtual nos sites de relacionamento.

A filosofia já nos mostrou que o virtual não é uma oposição ao real, mas sim a potência deste real ainda não realizado. Complicado? Leia "O que é o virtual?" de Pierre Lévy para entender melhor. Mas voltando ao assunto, sem muito rodeios, na última década cada vez mais pessoas começaram a acessar a internet e a partir daí uma série de novos "produtos" começaram a ser oferecidos no mundo virtual, entre eles, os mais populares são os tais sites de relacionamento. Atualmente os mais populares são Orkut, Facebook e Twitter (Alguém ai se lembra do Beltrano?), mas o que mais tem me impressionado nos últimos meses é o Twitter. Vou explicar porque, o Orkut é o velho conhecido da galera, popular entre os brasileiros pois possibilita que cuide-mos uns das vidas dos outros, tem todo aquele clima de "hora do recreio" no colégio, onde você pode paquerar as menininhas(os), cobiçar a mulher(homem) do próximo, se vender como aquilo que você não é, além de participar de uma série de comunidades inúteis, que na real você nem particpa. O Facebook fala todas as línguas, mas muito pouco português, os brasileiros ainda não aderiram a "nova onda" dos gringos que fugiram do Orkut por causa do enxame verde amarelo. Mas aparentemente o Facebook é bem parecido com o Orkut, só que mais complicado em termos de uso. Agora vamos falar da coqueluche do momento, a menina dos olhos de todos aqueles que são interados na internet, o tal Twitter.
Lembro que ao ser convidado para fazer parte do Twitter, quando me cadastrei e entrei no site, me fiz a pergunta: "Para que serve essa merda?" Mas era o início do site e pouca gente fazia parte da brincadeira. Algum tempo se passou e mais pessoas aderiram, e apesar de ter descoberto a funcionalidade do Twitter, uma coisa ainda me choca, não no site, mas nas pessoas. A necessidade que as pessoas tem de fazer de suas atividades privadas, algo público.

Internet, Mp3, 4, 5, 6. Talvez tenham poder, mas não aproximou vocês (EMICIDA).

Se o mundo virtual é o mundo real que não se realizou, ou seja, se ele pode ser entendido como potência, podemos dizer que há uma pulsão desejante em ambos os mundos e que provavelmente elas são as mesmas. O Twitter, seria uma ferramentas extraordinária se ele fosse usado como ferramenta comunicacional de utilidade pública, onde as pessoas pudessem trocar informações, enviar links de coisas interessantes ou engraçadas, até mesmo organizar manifestações públicas através da internet (até fizeram isso no caso do Sarney), mas são poucos os que se articulam para isso. A grande maioria das pessoas que usam o Twitter, fazem posts relacionados com suas vidas privadas e diga-se de passagem, pouco interessantes. Tenho alunos na escola onde dou aula que fazem posts do tipo: "Agora vou comer um bolo de chocolate" ou "Meu namorado me deu uma bolsa amarela linda!" ou "Será que corto o cabelo curtinho ou só as pontas". Sem contar as adolescentes malucas com seus ídolos que postam milhares de "#jonasbrothers I love you" por dia. E isso não é um mal adolescente não, muitos, mas muitos adultos usam o Twitter da mesma forma.
Essa vontade de expor a vida pessoal, tem a ver com a falta de distinção entre vida pública e vida privada, típica de nossos tempos, onde vemos deputados e senadores usando dinheiro público para viagens privadas, onde temos como grandes campeões de audiência da TV os reality shows, entre outra bizarrices que acontecem. A publicização da vida privada e a privatização da vida pública, faz com que ferramentas que poderiam ser importantes para a revitalização da nossa esfera pública e o exercício das nossas inteligências em vários campos como política, arte, humor e mesmo o entretenimento, sejam jogadas descarga abaixo. Portanto, antes de postar qualquer coisa no Twitter, faça a pergunta a si mesmo "Será que isso vai ser relevante para alguém, ou apenas para mim?" Quem sabe assim o potêncial virtual dos sites de relacionamento, possam se converter em algo real, inteligente e bem mais interessante.

8/10/2009

Borges, ou: como descobri meu Aleph


Lembro, como se fosse hoje. Trabalhava no Itaim: era boy de firma de advocacia. Odiava aquilo. Ficar em filas, bancos e cartórios, o dia inteiro. Gostava de duas coisas: dos trajetos que fazia o dia inteiro e dos jornais. Sempre tinha um jornal dando sopa, em algum lugar. Que eu podia pegar, sentar e ler. E assim, antes da internet, tinha acesso às notícias, todos os dias. E também, aos cadernos de cultura, ícones de uma classe média decadente, que consome apenas o que lhe é chancelado por arautos do bom viver, ler, comer, ouvir e ver.

Um dia, num exemplar do Caderno 2 tinha um artigo sobre Jorge Luis Borges. Até aquele instante, este nome não significava absolutamente nada para mim. Eu devia ter uns 15 anos. Soube alí que era argentino; que havia sido bibliotecário; que havia ficado cego; que morrera a pouco. Havia escrito apenas histórias curtas, num gênero conhecido como “fantástico”. De repente, a fotografia que ilustrava a matéria tinha uma história. E aquele olhar, um sentido.

Na mesma página do jornal, mais abaixo, tinha texto completo. Era o conto “O Imortal”, o primeiro do seu “O Aleph”, seu livro mais famoso. A história do manuscrito de Marco Flamínio Rufo me fulminou. A escrita era rápida. Quase livre. Mas de um eruditismo ímpar: Borges puxava sua narrativa pelo rabo, a dobrava do avesso, para depois, recompô-la. E no meio disso tudo estava eu. Atônito. Boquiaberto.

A partir daquele instante, devoro suas histórias sempre que posso. Me sinto humilde diante da magnitude de suas frases curtas. Seu ritmo próprio, suas rimas, suas tramas. Suas quantidade de referências.

Reler os textos de Borges é como caminhar por uma metrópole. Tudo está sempre em decomposição e materialização. Obra inacabada, onde as cores se misturam em nossos próprios olhos. O universo e seu infinito, em uns poucos pares de páginas.

“E assim Daneri descobriu seu Aleph no subsolo de seu porão”, e eu por acaso, descobri o meu: que em seu capricho, se colocou entre as páginas 113 e 114.


Como homenagem, replico abaixo um texto de Borges de que gosto muito.


In memorian J. F. K.


“Essa bala é antiga.

Em 1897 disparou-a contra o presidente do Uruguai um rapaz de Montevidéu, Arredondo, que passara longo tempo sem ver ninguém, para que o soubessem sem cúmplices. Trinta anos antes, o mesmo projétil matou Lincoln, por obra criminosa ou mágica de um ator, que as palavras de Shakespeare tinham transformado em Marco bruto, assassino de César. Em meados do século XVII, a vingança a usou para dar morte a Gustavo Adolfo da Suécia, em meio à pública hecatombe de uma batalha.

Antes, a bala foi outras coisas, porque a transmigração pitagórica não é própria apenas dos homens. Foi o cordão de sede que no oriente recebem os vizires, foi a fuzilaria e as baionetas que destroçaram os defensores do Álamo, foi a lâmina triangular que segou o pescoço de uma rainha, foi os obscuros cravos que atravessaram a carne do Redentor e o lenho da Cruz, foi o veneno que o chefe cartaginês guardava num anel de ferro, foi a serena taça que num entardecer Sócrates bebeu.

No Alvorecer do tempo foi a pedra que Caim atirou em Abel e será muitas coisas que hoje nem sequer imaginamos e que poderão dar fim aos homens e a seu prodigioso e frágil destino”

8/03/2009

Patrulha do Macaco

Pensou que tinha acabado?
Que nos tocamos que sarcasmo não é a nossa né?
Errou.
Aqui a macaca é meio malacabada mas não é cega. Enquanto isso, nem com força de reboque ou arrastão (muito menos a espetão de marimbondo de fogo) , se arranca calhorda do Senado. Não adianta rapeize, muda-se a mosca, mas o merdalhéu é o mesmo, inversalmente e vetorialmente falando.
Alilás a Apes podia desencanar da literatura, da arte, essa porra toda e ir pro mundo do marketing mesmo. O ideal seria viver de "campanha".
Aqui vamo improvisando pensando no bordão, numa faixa, versinho ou lamúria. "Imperador Maranhaense Solta o osso meu avô!"
Isso sem falar no caçador de mara(cu)jás, reabilitado com a cara de peroba escolada na política antropofágica. Seria o inverso de ressaca moral misturado com síndrome de eterno retorno (pena que essa não é como a Aids que tem fim).Para esse poderia se pensar em algo como "engula meu nome, faça indigestão e depois use como quiser" numa camiseta, com imagens á la 2Girls 1Coup, num tom meio coprofágico, pois afinal bizarria geral é pouco.
Você anda de fretado? Gosta do transporte coletivo com cheiro de povão? Resolvendo o pobrema de transporte e moradia na mesma tacada-------> Campanha Apes á favor da moradia no metrô em breve nesse mesmo blog, vá acompanhando...
E já que o papo foi para "obras" a Apes encarecidamente pede ao seu turco mais querido, aquele mesmo que fez o céu, a terra, as estrelas, o minhocão, a eucatex, o viaduto e é o ÚNICO capaz de criar o metrô São Paulo-Ilhas Caiman, que devolva o din din do povão...A gente é marrom, feio, tem sotaque nordestino, mora na perifa, mas não quer depender de Ministério Público para ver a cor das verdinhas...
E por último o nosso futuro carro chefe. A campanha "Não defeques pela boca Maynardi". A cada desejo intelectual que o ilustre comentarista despejar em teus ouvidos e olhos, que desafie sua inteligência, favor enviar um twitter ou email com a frase da campanha para o distinto. Não precisa mais nada. Só um envio simples que se pode ser feito rapidinho, assim num pique quando seu chefe não estiver vendo. Não vai mudar nada, ele fará que não sabe ou não lê, que é superior, irônicão. Mas, como profundos conhecedores do símio humano, sabemos que ele terá um cantinho em sua alma de jornalista para o incômodo, mesmo que ele finja que não.