10/28/2009

Um pouco sobre a configuração espacial da cidade de São Paulo.

Como nasceram as periferias.



Este texto faz uma analise histórica, política e sociológica a respeito dos conflitos urbanos ocorridos em São Paulo, no final do século XIX e inicio do século XX, mostrando o expansionismo da lógica capitalista de organização da cidade, que resultou na constituição do que hoje chamamos de periferias. Através desta análise, talvez possamos entender melhor como se configura o que chamamos hoje de favelas.

A cidade de São Paulo se torna o pólo da produção de mercadorias e do comércio, a partir do momento em que se inicia a transição do modelo de produção com mão de obra escrava, para o modelo de produção com mão de obra assalariada. O reflexo desta transição se deu de várias formas: econômica, político-institucional, social, etc. Mas esta análise parte do ponto de vista da crise do espaço urbano, mapeando desta forma a constituição de uma nova ordem social.

Na relação, escravo – proprietário, onde a dominação se dava de forma clara e os limites entre as duas classes eram muito bem definidas, o escravo era visto como propriedade do senhor dono das terras, sendo assim, este era responsável por manter a sua “máquina” de produção funcionando. Para isto, era necessário manter este corpo-máquina com uma dose mínima de alimentação, tentar livrá-los de doenças e fornecer a eles uma forma de moradia. O escravo morava na fazenda do senhor, e não se caracterizava como um indivíduo, só conseguindo alcançar este status, quando se tornava membro de um quilombo ou quando conseguia comprar sua carta de alforria.

Com a abolição, os escravos foram jogados a sua própria sorte. A partir daí, surgiu à necessidade de se utilizar mão de obra assalariada, o trabalhador livre. Mas o trabalhador livre, até então era uma minoria nas cidades, então foi preciso construir este arquétipo, fisicamente e ideologicamente. Se não era mais possível – fazer trabalhar – com a força da chibata, a nova ordem deveria se encarregar de produzir este trabalhador que tivesse somente a sua força de trabalho para ser vendida. Nem o caipira (considerado preguiçoso), nem o negro ex-escravo se transformaram imediatamente neste novo trabalhador livre. Sendo assim, os fazendeiros contrataram o imigrante europeu, pois as políticas da época eram vantajosas neste sentido. O governo da província pagava as passagens destes imigrantes. Por outro lado à idéia de se utilizar mão de obra “civilizada” atraia muito os fazendeiros, pois não era possível romper repentinamente com a carga ético-política da escravidão. Neste contexto, o embate entre “barbárie versus civilização” ainda se fazia presente na elite dominante da Primeira República Brasileira (1889 – 1930).

Neste contexto, pela primeira vez no Brasil, a grande maioria dos trabalhadores (agora assalariados), passa a não mais habitar a propriedade do patrão. A nova ordem social implica numa re-definição do espaço social muito bem delimitada, onde cada classe sabe onde pode e onde não pode transitar. Os trabalhadores são empurrados para as margens das ferrovias, onde a maioria das fábricas se concentrava, e os seus bairros eram geralmente constituídos de inúmeros cortiços, zonas pantanosas e inundáveis, quase sempre com esgoto a céu aberto em uma paisagem que se contaminava também com as chaminés das fábricas. Enquanto os patrões habitavam as colinas arborizadas, em alamedas retilíneas e palacetes bem construídos.

Uma das diferenças mais significativas nestes dois universos, era a forma como os moradores se relacionavam com o espaço público. Nas zonas pobres, a maioria dos espaços, eram públicos ou semi-públicos, botequins, campos de futebol e a própria distribuição espacial dos cortiços, que geralmente eram constituídos de cômodos-leitos, banheiros e tanques de lavar roupa para o uso de todos os moradores, e um corredor ou pátio central. Por outro lado, Nas áreas ricas, os cômodos eram devidamente separados e funcionalmente organizados, não há muitas áreas de convivência coletiva e as mansões se fecham em muros e grades que separam a íntima vida social. Este processo de separação e diferenciação de cada bairro faz com que estes bairros tornem-se mais do que lugares no espaço da cidade, eles assumem as características dos grupos sociais que os ocupam e se identificam com eles. É como um efeito psicogeográfico, onde as características de um lugar organizado conscientemente ou não influenciam diretamente sobre o comportamento dos indivíduos que o habitam.

Todas estas transformações visavam estabelecer uma ordem dominante no contexto urbano-social, e se esta ordem se tornasse homogênea isto de certo modo garantiria a reprodução do modelo político, social e econômico vigente. Mas a forma de organização dos bairros proletários se contrapunha diretamente a está ordem, pois produzia outras formas de sociabilidade que valorizavam muito mais o espaço público do que o espaço privado e misturavam praticadas sociais distintas com a mistura de negros e imigrantes europeus (na maioria italianos, espanhóis e portugueses). O poder urbano por sua vez tentava reprimir ou transformar tudo que se diferenciasse da ordem social vigente, a ordem da classe dominante. A homogeneidade absoluta desta ordem era favorável à manutenção deste poder dominante, portanto tudo aquilo que diferia desta era considerado desvio e transformava-se imediatamente em objeto de intervenção. Esta intervenção se dá através de um discurso que estabelece o modelo ideal de cidade e cidadão, e através de intervenções diretas na vida destes cidadãos. Faz-se presente uma construção e estigmatização de determinados grupos sociais e estes passaram a ser considerados não adequados e conseqüentemente suas ações passaram a ser reprovada e assim se dá à eficácia do discurso. Um discurso de construção da anormalidade, que se assemelha muito com as idéias do filósofo francês Michel Foucault, onde há a consolidação de uma complexa rede de instituições de disciplinarização, e de mecanismos de vigilância, de papéis e exigências sociais que para manter o bom funcionamento da ordem vigente, constroem uma figura monstro-humano ou anormal, que precisa ser devidamente encarcerada e disciplinada. Foucault em sua análise desvela a formação do conceito de anormalidade decalcado na criança, e que por isso, foi alvo da educação e da tutela do Estado. Está idéia de Foucault, reflete também em outras parcelas sociais, e como vimos acima à disputa urbana do inicio do século XX, carrega alguns de seus reflexos.

Uma das formas de se combater os cortiços, eram as chamadas “vilas higiênicas”, que eram vilas que se diferenciavam dos cortiços por conter no interior de cada unidade as áreas de cozinhar, lavar, banhar e defecar. E cada habitação possuía mais de um cômodo contendo mais separações que o cortiço.
Os habitantes das vilas, não se diferenciavam em muito dos habitantes dos cortiços, eles também eram trabalhadores das fábricas, mas a partir da construção deste novo tipo de habitação, nasce uma separação ideológica entre estes moradores, os “cortiçados” e “moradores de vila”. Os cortiçados passam a ser caracterizados como “perigosos marginais”, enquanto os moradores de vila, são chamados de “pobres trabalhadores”. De um lado a miséria perigosa, baderneira, ilegal; do outro a miséria útil, explorada e permitida. As vilas eram totalmente submetidas ao tempo-trabalho, pois na maioria das vezes, eram construídas nos arredores das fábricas, portanto, a mesma disciplina da fábrica, vale para a vida privada.
A partir daí, inicia-se o processo de remodelação da cidade, onde proprietários, interessados na valorização de algumas regiões, juntamente com ações de especulação imobiliária. São construídas pontes, viadutos e praças redesenhando completamente alguns setores da cidade.

Deste modo, podemos traçar a história do surgimento da periferia nas grandes metrópoles como São Paulo, principalmente porque este conflito e estas contradições sociais ainda se fazem presentes hoje. A cultura dos cortiços deixou suas marcas nas favelas, e mesmo em escala menor, os cortiços se fazem presentes nas grandes cidades. Portanto a luta pelo espaço, é mais atual do que nunca hoje.


10/25/2009

Minha recusa a banalidade - duas ou três palavras sobre a violência urbana

50 mortos. O saldo da Guerra civil no Rio de Janeiro. Fora aquelas mortes não contabilizadas. Fora um helicóptero destruído. Fora os policiais que deixam uma vítima agonizar por quase uma hora antes de morrer. Os casos são incontáveis. As experiências, inenarráveis. O que acontece nos becos e ruelas das grandes cidades do Brasil (e aqui o Rio de Janeiro e São Paulo ganham destaque) fazem parte de um roteiro brutal e insano, de um cotidiano que está permeado pelo medo e pela insegurança.

Muito foi e está sendo dito sobre as raízes destas questões: crime organizado, tráfico de drogas, pobreza, o abismo entre as classes sociais, as decisões administrativas. Estes são pontos absolutamente profundos e pertinentes, que demandam uma quantidade absurda de dados e pesquisa. Eu faço votos que os cientistas sociais brasileiro realmente estejam atentos a esta questão, e que concentrem esforços em dar algumas resposta a esta equação que até agora parece impossível de resolver.


Mas aqui eu vou tentar apenas escrever umas duas linhas sobre uma fragmento desta crônica. Nesta última terça, dia 20, o corpo de um homem cravado de balas foi largado numa rua perto do Morro dos Macacos no Rio de Janeiro. A cena causava espanto e curiosidade. O corpo já mostrava sinais de decomposição. As pessoas que ali passavam olhavam o homem; e ele assim permaneceu. O evento continuou até as autoridades cariocas resolverem que o circo devia ser fechado, e então retirassem o homem dali.

O assombro da cena está não na sua violência e terror, mas sim, na sua banalidade.

Hannah Arendt (umas das mais importantes intelectuais do século XX) escreveu um livro sob o título “Eichmann em Jerusalém”. Na obra, a autora apresenta sua visão do julgamento de Adolf Eichmann, notório criminoso de guerra nazista e um dos principais atores do genocídio perpetrado aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1961, ao ser encontrado e preso, Eichmann é julgado em Jerusalém por uma corte especial e então, em sua defesa, narra seu papel como um dos principais responsáveis pela arquitetura da logística dos campos de concentração com absoluta normalidade.

Arendt aponta a “banalidade” de Eichmann na medida em que este aparece apenas como uma peça de uma grande engrenagem. Um autômato que cumpria ordens. Arendt coloca o terror do holocausto, dos assassinatos em massa, da mecânica do extermínio, dentro de uma lógica de absoluta e fútil normalidade.

Duas são as considerações que quero colocar a respeito da relevância do texto de Arendt sobre nossa realidade, e em especial, sobre o caso que destaquei. A primeira está na banalidade de nossa violência cotidiana. A banalidade de “nosso” mal está no fato de que nem cenas de absoluto terror tem a capacidade de nos revoltar. Pelo contrário: elas se apresentam enquanto um fato pitoresco. Nos causam estranhamento e espanto. Mas não mais o terror. O cotidiano brutal narrado nos jornais – e que pode ser acompanhado ao vivo das janelas de casas e carros – dinamitou nossa sensibilidade.

A segunda ponderação é uma questão de postura. Arendt viu Eichmann como uma “peça” de um “sistema”. Dentro daquele contexto, Eichmann estaria desprovido de sua individualidade, e , obedecendo àquela “normalidade”, os atores sociais acabariam sendo sugados para uma espiral onde suas ações não são percebidas em sua totalidade. A alienação, neste sentido, se não tira a responsabilidade total dos atores sociais, ao menos atenua sua culpa.

Me coloco no campo contrário. Vejo aqui uma questão muito menos analítica, e muito mais de “postura” prática. Todos os atores sociais tem escolhas. E estas escolhas sempre estão condicionadas. Em maior ou menor medida, essa “banalidade” da violência que explode na televisão e nos jornais é interpretada, reinventada e reproduzida por todos nós. A mim, ela me choca, me revolta. Não posso permitir que a exceção se torne a regra.

O corpo daquele homem morto no carrinho de supermercado deve ser colocado no seu devido lugar: como o resultado de uma guerra civil brutal que está nos consumindo enquanto sociedade e enquanto seres morais. E este é o fim do poço.

10/22/2009

Como aprendi a deixar de me preocupar e passei a odiar a Mostra


Outubro. De novo. 33. Mostra Internacional de Cinema. Sim, ela começou hoje. Mas, eu tinha umas palavrinhas ensaiadas. Posso?

Eu não nasci odiando a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Pelo contrário. Fui a muitas edições da Mostra. Lá pude conhecer os filmes do Oriente Médio (Gosto de Cereja de Abbas Kiarostami é um dos que mais me marcaram), lá experimentei a falta de ortdoxia de Guy Maddin. Conhecei Sukurov e sua arca. E tive uma das minhas experiências mais catárticas com uma obra de arte: Tempos de Lobo, de Michel Haneke.

Acontece que a Mostra não é mais um espaço onde aqueles que apreciam o cinema podem se reunir e ter acesso a filmes que nunca (ou quase nunca) seriam exibidos em circuito comercial. A Mostra de Cinema de São Paulo perdeu se caráter de promover acesso. Hoje, ela é um mastodonte que ocupa 25 salas de cinema e onde são exibidos mais de 420 filmes.

A Mostra ter aumentado de tamanho não é em si um problema. Não sou romântico. Não acho que os grandes filmes devam ser apreciado apenas nos cineclubes, onde apenas 4 fulanos pagam a entrada para ver o “obscuro filme daquele diretor turco”. O crescimento da Mostra é fator positivo para a produção e acesso de filmes no Brasil. O que mudou porém é o significado social que a Mostra adquiriu. Ela virou um role. É legal ir a mostra, simplesmente porque... bem, é legal ir a Mostra.

Em quinze minutos de passeio pela Augusta, nós vamos ver o tipo: ali. O cara comprou todo o “merchan” disponível na central. Acordou cedo e garantiu seu pacote de 40 ingressos. Leva a tiracolo o guia da Mostra e o da Folha. Usa um caderninho, e no fim das sessões, dá notas aos filmes e marca um grande “X” naquele que acabou de ver. Nas filas, sempre está sozinho. Quando não está sozinho, está contando vantagem dos filmes que já viu antes de “todo mundo” para seus pares. Sim, o clima é de competição. Quase sempre usa camisetas de Mostras antigas - de 1994, 1997, 2000 – para mostrar sua assiduidade. Nos dias de buscar o ingresso das sessões mais concorridas, acorda as 5:00 da manhã e está na Paulista às 6:00. Esse grupo tomou de assalto a Mostra.

Antes, essa praga das transformações e reaproximações do capitalismo eram minoria. Eram. Hoje, são ampla maioria. Em maior ou menor medida, os Tietes da Mostra são onipresentes. Em 2007 tentei ir em alguns filmes. Havia limado da minha lista aqueles filmes que iam estrear, e também, aqueles que haviam ganhado prêmios. Assim, sobraram uma dúzia de filmes que queria ver. Não tive sucesso em nenhum. Todas as sessões lotadas. Todas. Sem exceção.

Ir a Mostra de Cinema de São Paulo hoje é para ver e ser visto. O cinema virou segundo plano. Cabe agora o rancor por ter visto um evento tão interessante ser assim tomado. Mas é. O inescapável.

Mas a Mostra é assim: agora eu adoro odiá-la.

10/10/2009

Andaime o Podcast da Apes!

"Andaime - O Podcast da Revista Apes!"

Enquanto o programa oficial é finalizado para estar aqui em breve, editamos alguns trechos de 2 programas piloto que não tivemos coragem de colocar no ar. Pois bem, o tempo passa o quesito vergonha na cara se esvai...

De qualquer forma algumas explicações tem de ser postas. Esses primeiros foram pensados para serem testes ou seja, foram gravados de forma rudimentar e não tínhamos tanto primor com o "linguajar". Portanto, se você tem ouvidos ou humores delicados, recomendamos a NÃO audição do programa, estando você por sua conta e risco.

Outra coisa, tinha-se a idéia de web-radios na mente, onde além das pautas (quando existiam) colocávamos músicas. Como para algumas pessoas é um saco ficar ouvindo música que não gosta enquanto o programa carrega no streaming, optou-se por dividir em 4 blocos, onde as músicas tocam sem parar ao fim, portanto se você não tiver interesse em absorver nosso sublime gosto musical é só pular para o podcast seguinte e se antenar nas bobagens que falamos.
Se quiser os blocos do programa estão disponíveis para baixar aqui

OBS.: Como algumas pessoas não estão conseguindo ouvir o podcast, decidimos deixar os blocos disponíveis para download gratuito. Pedimos desculpas aos amigos, e visitantes.
Divirtam-se.

Programa gravado em 02/08/2009

Neste primeiro programa, rolaram as apresentações, explicações sobre nossas idéias, sobre quem é e o que faz na revista. Falou-se sobre Internet, Sasha Grey, modernices e modernagens. Nova Babilônia, Pós-modernidade, “coisas de designer”. Universidade, da Burgueose ao proletariado militante, futebol de ressaca,"twitter, facebook,poropó-poropó-poropó" mas principalmente “Por que Andaime?” O Background foi de Baby Huey and The Babysitters e de Duke Ellington e John Coltrane, que deixaram o ambiente mais agradável. Além disso músicas de:

Calistoga,Deriva, Desvio ou Deturpação,O Cúmplice,Sleeping People, Arab Strap,Pulling Teeth, Steve Von Till, Emicida, Te Voy a Quebrar, Distro, Iron And Wine, Twilight Sad,Converge,Hot Water Music.

Download por partes
(bloco 1 aqui )
(bloco 2 aqui )
(bloco 3 aqui )
(bloco 4 aqui )

Fiquem atentos e usem as barras de rolagem no player!



Na semana que vem, mais podcast, mais bagaceiragens, ofensas, baixarias!

10/09/2009

Meant to Suffer

Os membros da Apes sempre se metem a dar opinião e colocar o bedelho em algo. Somos caras cheios de idéias, de bom gosto, quem nos acompanha sabe... Além disso, esse grupo de pessoas, ou “networking”, comporta um outra esfera mais estendida que são os amigos de amigos, que se tornam próximos em empreitadas (também conhecidas como roubadas) realizadas pela nossa gangue. Dá muita satisfação dessa forma quando se percebe o amadurecimento do trabalho de parceiros, e quando se dá conta do avanço em curto período.

O Meant to Suffer é um desses casos. Com duas demos e um período relativamente pequeno de existência, conseguiu provar que é possível desenvolver riffs interessantes, energia, e tornar atrativo um estilo musical que parece ser reduzido á formulas e construções óbvias. O grindcore parece ser muito propício a isso, pois vindo do hardcore-punk e com a muleta que o faça-voce-mesmo pode se tornar, muitos redundam-se a preguiça sem ousadia nas criações. Não é uma, mas são centenas as bandas mundo afora que só rearranjam ad-infinitum riffs em músicas idênticas, soando todas iguais e daí para diante.

Com a facilidade da Internet é simples baixar, ouvir, assistir o vídeo da banda e clonar uma estética, tentando agregar-se a um nicho ou estilo.



É por ir na contramão que sempre apreciei-os. A banda é basicamente sediada em Araras, interior de São Paulo. O interior paulista é histórico por ser celeiro de tantas bandas extremas. O Meant to Suffer é um exemplo disso, basta regatar que o vocalista Alcir foi membro do “Hinfamy” lendária banda de grindcore da região. De lá pra cá ele vem sempre se dedicando a expressão mais pesada e ensurdecedora do hardcore.

A demo em questão chama-se “Hiatus”, que casa perfeitamente com a temática desolada e deprê das letras. Sendo meio contraditório/sarcástico esse “hiato” (silêncio) praticamente não existe na audição dessa demo. No trabalho anterior o MTS executava de forma sublime um grindcore cru, com riffs não metálicos, muito mais hardcoreanos. Muito preciso como Assück mas ainda lembrando antigos momentos do Napalm Death. Por outro lado a forma de tocar, o estilo pessoal de cada um dos 4 cria uma “assinatura” da banda que a destaca entre tantas que querem ser o novo Pig Destroyer, o novo Brutal Truth...

A voz/guitarra de Alcir tem muita personalidade e junto da guitarra de Luiz fazem toda diferença por costurar, e fazer soar a banda como uma máquina. Nada sobra, tudo parece estar encaixado de uma forma que se percebe foi bem tramada, pensado em ensaios repetidos e analisados. As novas composições investem em diálogos com novas expressões do metal sem perder o pique. Existem ritmos mais lentos, mais cadenciados, partes menos diretas, mas ainda assim a banda consegue fazer tudo isso soar muito coeso. Nos apresentando climas soberbos que nos "envolvem" nesses temas, como se fosse um passeio de montanha-russa.

E aí que percebemos as músicas novas, como evolução das mais antigas. Completando o time, a dupla Gus e Rodolfo é perfeita sendo alicerce firme. Baixo e bateria vão erguendo um muro. Não como separação, mas como estrutura firme. É partindo dos dois, que vai se percebendo a banda como um construto, onde as melodias mais elaboradas e estratégicas podem desfilar, aparecer mais para os apreciadores e aficcionados do estilo.

A demo está disponível para download liberado e gratuito aqui . No myspace deles também existe o link para a demo anterior, altamente recomendada. A gravação de ambas não transmite 1% do que a banda é, não por desleixo deles, mas pelo próprio formato não comportar tudo que eles podem experimentar com mais horas de estúdio. Isso acaba sendo uma deixa, para se prestigiar a banda aparecendo nos shows onde tocam sempre excelentes e impactantes.


Serviço:



aperto de botão (fotos): Marcelo Fonseca

Num destes dias. A Noite





Aperto de botão: Thiago Zati

10/05/2009

Huxley, Dostoiévski e o meu mundo


Pela terceira vez, li o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Porém, a leitura teve frescor de nova. Não o lia fazia já uns bons 7 anos. Lembro quando peguei o livro na mão a primeira vez, no caminho óbvio pós-1984. Li este, e na sequência, outro clássico distópico: Neuromancer, de Wiliam Gibson.

Mas agora, as referências são outras. Livros bons são mágicos, eles se transformam, dada a nosso própria transformação. Ao olhar o mundo diferente, li o livro de maneira diferente.

A experiência de ler (e reler) Admirável Mundo Novo continua sendo atemorizante. De alguma maneira, diferente de 1984, Admirável Mundo Novo é um livro para ser lido um pouco mais velho, e não na adolescência. A razão disso está na percepção de que Huxley aponta os efeitos da massificação como questão principal do seu argumento, sendo que este é também o ponto central em nossa sociedade pós-industrial. Bingo! Esta é, talvez, a sacada máxima de Huxley: as democracias populares podem ser tão bem dirigidas e a liberdade pode ser tão completamente cerceada quanto o são modelos Fascistas.

O livro, para aqueles poucos que não conhecem, tem dois momentos específicos: um, em que acompanhamos Bernard: sujeito de alta casta na sociedade retratada no livro, mas que tem profundas duvidas quanto ao seu potencial. Sendo da casta mais alta, em uma sociedade completamente ordenada por este princípio, este caráter vacilante torna seu personagem um anti-herói. Sua personalidade é, em muitos momentos, pouco atraente. Durante a leitura, não existe empatia, pois a não conformidade de Bernard não está na rebeldia, mas sim em uma certa incompetência. O momento seguinte do livro se concentra em John, ou O Selvagem. Sujeito rejeitado tanto em seu grupo original, quanto na civilização, para a qual é arrastado por Bernard.

A dicotomia 1984/ Admirável Mundo Novo foi a tona durante minhas primeiras leituras. Era o embate entre o poder que domina pelo medo e pelo terror e aquele que domina pelo prazer e pelo condicionamento que dirigia meu olhar. Observar os diálogos, as posições e as referências a Shakespeare nos diálogos entre Bernard, John, Mustafá Mond, Lenina e Helmholtz estavam sempre, de alguma maneira condicionados a temática prazer/ medo, terror/ condicionamento.

Mas agora foi diferente: Huxley dialogou não com Orwell, mas com Dostoiévski e seu Crime e Castigo. E aqui, saindo do óbvio, acho que estamos mais próximos de um entendimento mais amplo de Huxley e de sua obra.

John e Raskólnikov vivem a mesma experiência: ambos se deparam - cada um por suas razões - a uma sociedade a qual não podem conviver. Cada um cria, dentro do seu (in)conciente, uma formulação própria a respeito do mundo que o rejeita. Ambos cometem um crime hediondo e ambos encontram a culpa e a vergonha. Cada um a sua maneira, procura um refúgio seguro. Um lugar de redenção.

Dostoiévski e seu cristianismo punem Raskólnikov com a Sibéria. Mas lá, este encontra o afago suave do perdão, e a oportunidade de poder olhar para sí mesmo renovado, em pé. A superação no sofrimento. A lição do tio Dostô é seu cristianismo otimista.

Huxley por sua vez, coloca John refugiado em seu próprio mundo, em sua solidão. Mas ao invés da redenção, John torna-se um freak. Afinal de contas, numa sociedade perfeita, organizada, e baseada no prazer, qual o lugar da dor? Como lidamos com o desgosto? Com a vergonha? Como nossa sociedade lida com as mesmas questões? Qual a resposta que encontramos?

Raskólnikov e John se automutilam, se apartam, correm para dentro de sí. Raskólnikov encontra o perdão. John encontra a espetacularização. Seu perdão não está aqui, mas apenas fora de sí. John acredita em Deus, mas não acredita em Jesus. Dostoiévski acredita em Jesus. e ponto. Huxley inverte Raskólnikov. Ao inverte-lo, só lhe resta a corda. Orwell acertou na União Soviética e na Alemanha Fascista. Huxley viu mais longe: viu no ontem o agora.

10/01/2009

Breve reflexão a respeito do futebol.

Sou apaixonado por futebol e costumo acompanhar aqueles programas do tipo "mesa redonda" que cobrem as rodadas dos campeonatos nacionais. Nesta última quarta feira, eu assistia a um programa desses e um dos assuntos que estava em pauta na mesa de discussão era a respeito de uma festa que aconteceu no Esporte Clube Corinthians Paulista, em comemoração aos 99 anos de existência do clube. A polêmica toda girava em torno de um vídeo encomendado pela diretoria do clube, onde dois personagens batiam uma bolinha; um era o Gavião, simbolo não-oficial do Corinthians e o outro era um veadinho bem parecido com o famoso personagem da Disney, o Bambi, óbviamente vestindo uma camisa branca com listras horizontais preta e vermelha. A pergunta em questão era: Faltou ou não faltou ética ao Corinthians ao fazer e apresentar o vídeo? Esse tipo de provocação deve ou não ser feita? etc. A partir daí começaram todos a falar sobre postura ética, fair play, potencialização da violência entre torcidas, entre outras coisas. Mas toda discussão tomou um corpo extremamente conservador, porque os dinossauros-comentaristas, não conseguem entender que a violência entre torcidas, ética e fair play, não tem nada a ver com a rivalidade e a provocação entre clubes e torcedores.
O futebol é um dos esportes mais emocionantes, justamente pela liberdade que todos os envolvidos com ele tem (ou tinham) de provocar os adversários, zoar com os perdedores, etc. Não tem a ver com violência. As causas da violência entre torcidas são outras, talvez máscaradas por este discurso de senso comum, mas definitivamente são outras.
O conservadorismo no futebol vem crescendo desde quando os clubes se constituíram como empresas privadas, e o tal "boleiro", passou a ser um atleta-funcionário da empresa. A ascensão do capital esportivo configurou a morte da mágia do esporte.
Em um mundo conservador, políticamente correto, onde a biopolítica reina, é impossível concebermos jogadores tipo Dr. Sócrates, que dava entrevista fumando um cigarro após a partida e revolucionou a história do futebol com o movimento "Democracia Corinthiana" nos anos 80, ou Paulo César Caju que divulgava o ideário dos Black Panthers no meio futebolísticos nos anos 70. Porque agora o futebol é dos Kakás, Alexandres Patos, Caios (agora comentárista), entre outros bons moços. Edmundos, Romários, Vampetas e Edilsons não terão mais vez. Assim como na nossa sociedade cada vez mais chata, cada vez mais passiva e sem agitação ou qualquer tipo de enfrentamento, o futebol está se tornando um esporte sem graça, onde nem mesmo as piadas comuns entre torcedores e clubes estão tendo espaço sem que dezenas de pseudo-entendedores começem a apontar o dedo e dizer que: "Está errado, é anti-ético!". Anti-ético é transformar tudo em business, embalar e vender nossas paixões para nós mesmos, transformando-as em inofensivas.

Segue abaixo o vídeo em questão.