7/31/2009

Cenas, Sub-Cenas e Contra-Cenas. Para entender "um pouco" a música de subsolo.


Acho que todos os leitores deste blog já perceberam que quase todas as últimas postagens foram relacionadas a música, o que provávelmente será um tema muito mais explorado aqui e que trará novidades para todos. E como eu não quero ser aquele que vai romper com o fluxo da coisa, resolvi também fazer um post sobre música, mas não indicação, nem resenha de nada. Este é um texto no qual eu tentei refletir e entender um pouco o que anda acontecendo no cenário musical independente ou faça-você-mesmo (Punk). Percebam que não coloquei tudo isto no mesmo saco, justamente porque eu acho que há uma diferença entre cada uma dessas esferas da produção musical que hoje se concentra principalmente na rua Augusta (Também conhecida como "Nova Babilônia").

Para vocês entenderem melhor o que se passa aqui, posso dizer-lhes que eu tenho uma banda, outros memebros deste blog-revista-coletivo de macacos, também tem bandas e circulamos muito por shows, bares e lugares da tal rua Augusta. E conversando com pessoas, pesquisando bandas, assistindo e tocando em shows, percebi que a configuração do "underground" vem mudando drásticamente. Primeiro vamos tentar entender esse monstro musical.

O que seria o tal independente?

Não entendam isso como uma verdade estabelecida, é apenas a minha interpretação dos fatos, é como eu enxergo a coisa.
A tal cena independente, me parece apenas um fragmento contemporâneo do tal monstro "underground", que começou a se configurar no ínicio desta década e principalmente por causa da popularização das internet. O independente hoje, é um fenômeno de internet e não tem nada a ver com o termo que era usado na década de noventa para descrever as bandas que giravam em torno do selo Matador.
Esta nova cena independente não gira em torno de um selo, mas sim em torno de uma emissora de televisão, a MTV, e tem uma ideologia muito particular. Com a popularização da internet, a consolidação do plano real que aumentou a capacidade de consumo da classe média, muitos jovens, rockeiros e aspirantes a pop star, começaram a montar bandas e divulgar seus trabalhos na internet. Talvez, no primeiro instante, esse processo era apenas uma modernização das famosas fitinhas demo que eram distribuidas e vendidas de mão em mão em shows, e que ajudavam as bandas a arrumarem shows e até viajar para outros Estados, daquele jeitão Punk mesmo, quase sempre no prejuízo. Mas o que vemos nos últimos anos é uma centena de bandas que utilizam o circuito independente como uma plataforma para o córrego principal da música (mainstream). Até ai nenhuma novidade, mas o engraçado é que a grande maioria não alcança nunca esse mainstream e acabam se ficando entre o underground-punk que toca em botecos sujos e o mainstream-pop que toca em grandes festivais. Isto é a nova cena independente brasileira, o meio do nada.

É claro que esse processo de inclusão total, faz parte da lógica do capital, da indústria cultural (dá-lhe Adornão!), mas como no Brasil tudo meio que acontece brasileiramente, essa inclusão nunca é total e sabe porque? Simplesmente porque as guitarrinhas bregas e oitavas, ou visual desleixado-chic anos sessenta ou pseudo-folk autista nunca serão páreos para o mexe a cadeira do axé, funk carioca, etc. Como os ouvidos não estão mais acostumados a ouvir e somente o corpo está acostumado a dançar, nem toda a pose pankake das tais bandas nova MTV, conseguem ter a atenção total da massa, exceto os adolescentes perdidos, sem a menor referência musical, que se juntam em bandos de roupas coloridas e cortes de cabelos bizarros, mais preocupados com a estética pasteurizada vendida na galeria do rock, do que com a música em si. É por isso que os NX zero, um, dois, três...Conseguem ser diferentes do resto dessas bandas, e conseguem ser geniais em toda sua ruindade, pois imitam o que é grande lá na terra do Tio Sam de uma forma tão estúpida e plastificada que qualquer bom ouvidor de Sunny Day Real Estate, ficaria envergonhado. Bye Bye Emo!

Memórias do Subsolo!

Agora tratemos do subsolo, do Punk e suas mil variantes.
Enquanto do lado de lá do córrego, temos o meio termo de bandas que não sobem nem descem. Do lado de cá temos dois tipos de banda, as que permanecem no underground-punk por falta de opção, e as que permanecem por convicção.

As primeiras, são criadoras de uma lógica própria, e acabam por criar uma cena própria. Vários são os estilos, mas a idéia é uma só, manter-se no mesmo lugar pois é aqui que brilhamos. Não tem nada a ver com contra-posição a lógica de mercado, ou qualquer coisa relacionada a postura política, é simplesmente comodismo. É o medo de perder o posto de estrela do esgoto. As cenas se fecham em seus estilos, a experimentção acaba, a fórmula repetitiva fordista usada no tal mainstream também se repete, e para que mexer em time que está ganhando, não é mesmo? O ponto positivo é que muitas vezes as propostas musicais são honestas, mesmo não sendo nada de surpreendente.

As segundas, as que permenecem nisso por convicção, geralmente fazem o oposto do que as cenas e sub-cenas fazem. Elas funcionam como contra-cenas, deslocadas, não identifícaveis, perdidas na babilônia. Juntam-se em pequenos grupos de afinidade, mas estão sempre abertas a mudanças e trocas. Estão nessa por convicção, e principalmente pela música.
A imprensa especializada e estupidificada, costuma dizer que nada de interessante acontece no cenário musical brasileiro, e quando algo interessante aparece, sempre fazem referência ao tal independente, e toda a máquina mercantil que está por trás disso, selos, festivais no nordeste, grandes veículos de comunicação, etc. Mas a real é que eles são limpinhos demais para chegar ao fundo do cenário musical e os ouvidos pouco acostumados a ouvir, fazem coro com as mentes pouco costumadas a pensar e pesquisar.

Deste modo, temos uma criação de massa, de uma ideologia de cena independente, que na verdade não passa de uma reprodução torta de um mainstream ruim, mas que consegue pelo menos alcançar seus objetivos, massificação e enriquecimento. E o underground? a verdadeira contra-cena independente? o faça-você-mesmo? Esse sempre vai continuar existindo, enquanto garotos continuarem assistindo documentários como "Another State of Mind", "We Jam Econo" e "American Hardcore", e sentirem vontade de montar uma banda, mandar um foda-se para a estrutura e correr o máximo de lugares possíveis, só pelo prazer de fazer barulho.

7/30/2009

Emicida - "Pra quem já mordeu um cachorro por comida até que eu cheguei longe..."


Posts atrás comentei sobre a renovação do hip-hop ao assistir a apresentação de Slim Rimografia. Viny meu parceiro aqui no blog, de ouvido, olhos e dedos ligeiros postou aqui um comentário apontando para a mixtape de EMICIDA. Pois bem, até então eu não tinha conseguido o disco. Nesse meio tempo assisti o documentário de Pedro Gomes que se chama “Freestyle – Um Estilo de Vida”. Como foi em um evento especial onde rolou um debate tive oportunidade de conversar com o Pedro por um tempão. O papo em si foi gratificante pelas idéias, mas ele mesmo me alertou “Ouça EMICIDA”.

Agora estou aqui na frente do computador, sem saber por onde começar. Falar de um grande disco é assim, muito a dizer, sem saber por onde. Eu não sou crítico de música e nem tenho pretensão de ser. O que nos propomos aqui nesse blog/revista é pensar, divulgar e falar da arte em geral da forma como nos convém, sem rabos presos ou jabás. E principalmente expor o que temos contato, seja do subterrâneo ou de quem já é conhecido. Prefiro falar o que sinto ao ouvir e pensar sobre esse play. As referências, os sinais, colocados espertamente entre os versos e rimas me causam familiaridade, justamente por eu ter origem e boa parte da minha vida na periferia. Por outro lado, ele pode facilmente ser absorvido por quem não tenha essa base e origem. O apuro de composição das rimas de EMICIDA, foi treinado e forjado nas ruas. Prova disso está não só nas inúmeras vitórias em batalhas e campeonatos de MC´s, mas é narrada durante as músicas. O universo literário, a poética do disco em si (se é que posso usar essas expressões) é formidável pois conecta referências tão inusitadas como histórias em quadrinhos, filosofia oriental, telenovelas, Eisenstein, com o mundo urbano, das periferias e ruas de São Paulo. Entre muitas outras. Isso mostra um grau não só de improvisação que vem no treino de tantas batalhas, mas em um tipo de “absorção” de conhecimentos múltiplos a serviço de uma personagem.

A “personagem” EMICIDA, não é uma simples criação, mas a personificação musical da pessoa do Leandro, “filho de Dona Jacira” . O rapaz é herdeiro dos grandes trovadores negros da música brasileira. Que vem de uma linha hereditária que tem Cartola e Jamelão. Que os pesquisadores e entusiastas da mpb queiram me crucificar ao ler isso, mas do mesmo jeito que esses pilares do nosso samba fizeram, o rapaz da zona do norte de São Paulo faz o mesmo: canta a vida. Ela perpassa as mais de 20 faixas do disco, e não é numa audição simples que isso virá. É algo que se percebe e invade os pensamentos vez após vez, a cada nova audição. Atrás do extenso título do disco, está a mãe, o primo, a rua, faixa por faixa organizada, em blocos que parecem refletir o humor e sentimentos do MC. Em certo momento o disco está raivoso, militante, crendo na força da música como mensagem, como uma nítida retomada do hip hop paulista dos anos 80. Noutro mais intimista, aparecem mulher, passado, a paternidade, as amizades, a saudade na distância, o quotidiano (até com o processo de composição do disco), e uma profunda e afiada reflexão acerca da realidade. Essa última impulsiona uma noção bem amadurecida de “lugar-espaço” e de não ilusão com a indústria da música.

Considerando que os meios de gravação e divulgação estão totalmente descentralizados e domésticos, nada mais justo que um rapper da periferia de São Paulo, com argüição de discurso e muita disposição lance um disco de tamanha qualidade técnica e conteúdo nas letras. Algo que podemos pensar é que EMICIDA também é fruto de seu tempo e também das transformações no fazer música nesse século. Mesmo que com talento de composição, tocando violão com boa voz, compondo lindos sambas, um homem da favela no Rio dependeria do contato com alguém do “asfalto” para seguir adiante á uns 40 anos. No bom sentido disso tudo, isso nunca mais se repetirá. EMICIDA não só é prova viva disso, por produzir e distribuir os próprios discos de uma forma a dar uma aula de “faça-você-mesmo” a muito punk-rocker, como também através disso dá novo fôlego ao rap, pelo qual é nitidamente apaixonado.

“A Rua é Nóis” não é um bordão vazio. É um lema que agrega idéias, companheirismo e esperança de ideais. É o engajamento no rap-mensagem. Como crítica de transformação social, que se faz num balanço filosófico e atento ao passado, não só nas origens individuais como na história da cultura negra brasileira. EMICIDA canta que “Jesus perdoou demais e morreu, lampião perdoou demais e morreu”, dessa forma ele reabilita o malandro, o “cara ligeiro” que existe nos discos do Racionais MCs e foi muito mau interpretado dentro e fora do hip-hop. Não se precisa matar, ter, roubar ou ficar muito louco para ser malandro, e usando uma frase do próprio Brown “malandragem de verdade é viver”. Ele quebra o tempo das rimas, das frases, intercala com rimas de “português errado”, mas que são genuinamente das ruas. E dá o seu recado em faixas simples e curtas, algumas de menos de dois minutos.

O que posso falar agora é que esse disco é uma preciosidade. Na minha humilde opinião, promove uma revolução muito bem orquestrada pela periferia, se valendo de algo que não se pode mais ter controle para disseminar idéias: a Internet. Bom, acho que eu poderia continuar escrevendo muito, mas seria repetitivo de minha parte e desnecessário. No fim das contas o que resolve todo esse tempo que fico aqui esmurrando o teclado é a frase do Pedro Gomes: “Ouça EMICIDA”.

7/29/2009

pristina.org Vs AG407



É simples. Se você fez uma cagada e não tem argumento pra justificá-la, você acha um outro acontecimento relacionado, feito por outro alguém, e promove aquilo até que se torne algo muito maior do que a sua cagada original. A sua cagada não é apagada, mas torna-se secundária ou "menor" já que agora, foi inserido um ponto de referência que tira o foco do assunto inicial.

Estou falando do fuzuê que a AG407 está promovendo na internet, muitos de vocês devem estar acompanhando, ou não. Se não, vamos lá!

O que acontece é que, à mais ou menos um mês atrás, o site da AG407 foi hackeado, invadido e atacado por possíveis ex-empregados já que as mensagens distribuídas no ataque eram relacionadas ao pagamento atrasado destes mesmos etc. Tudo feito em tom de humor/sarcasmo², no mínimo curioso.

Logo após ao ocorrido, o site pristina.org e o conhecidíssimo BlueBus publicaram o que havia acontecido, dando a possibilidade de resposta para os donos do site AG407, o que não aconteceu.

Agora, Alex Schonburg, diretor responsável da AG407 entra com um processo encima do site pristina.org por difamação e insulto, o que é totalmente infundado. Eu acompanhei tudo isso desde o começo e sei que não houve nenhum tipo de intenção difamatória nos textos do pristina.org, apenas a divulgação do que estava acontecendo na internet, e SIM, o site possibilita que visitantes comentem as notícias, ou seja, torna possível a opção de comentar o que pensa de todo e qualquer assunto no site.

Enfim, o que tenho visto por aí é que o assunto não divide opniões. Sabe por quê? Porquê ninguém gosta de censura. Simples. A internet é um veículo midiático e não pode, não deve ser vetado, censurado ou limado, como esta ação feita pela Ag407 está tentando fazer. Estamos em 2009 galera.

Do mesmo jeito que os "hackers" invadiram o site e criticaram a empresa, a empresa poderia ter colocado uma resposta no próprio site se justificando. Nada foi feito. Apenas tiraram o site do ar.. Logo, o povo começou a tirar conclusões próprias.. Aí O Sr. Alex vai lá e processa o site que estava falando do assunto. OK, muito adulto, very professional Mr. Alex, you do know how to solve your problems. (NOT?!) (coloque um sotaque meio Sean Connery na hora de ler isso, a piada fica melhor)

Fica uma divagação, uma especulação, uma teoria no ar.. Será que, o que a AG407 está fazendo é uma tentativa de tirar o foco do real problema?

Por fim, não sei o que gerou a ira dos "hackers" no começo, não sei o que aconteceu para o site ser atacado, não posso saber, até agora não me contaram, o que sei é que, não apoio a censura, nunca apoiarei. Eu Acredito na liberdade da informação.

Eu apoio o movimento do #freepristina, já estou lá. O que posso fazer agora é gerar a discussão encima deste assunto. No momento, incito a reflexão sobre este tipo de censura, não desejo insultar ou difamar tanto a Ag407 quanto o Sr. Alex Schonburg, mas não posso deixar de opinar e dizer que, a Ag407 deveria ter resolvido o assunto antes de ele ter tornado-se um viral tão grande. Agora não dá pra sair por aí processando os sites que divulgaram notícias. Esta é minha opnião.

Saiba mais:

- http://www.pristina.org/2009/07/20/este-e-um-blog-censurado/
- http://www.pristina.org/2009/07/17/freepristina/
- http://www.ag407.com/index.php?idPost=775
- http://www.pristina.org/2009/06/29/ag407-a-agencia-caloteira/

7/28/2009

Distro - Chocolate With Pepper




Mais uma banda de Natal, o Distro está na ativa desde 2005 e já possuem alguns trabalhos lançados no curriculum. Atualmente a banda é formado por Rafaum Costa (Voz e Guitarra), Vinícius Menna (Voz e Guitarra), Beloni Uchoa (Baixo) e Artur Araújo (Bateria) e estão no selo Xubbamusik, que tem lançado grandes bandas independentes no norte do país, como é o caso do Calistoga, que já teve seu último trabalho resenhado aqui na Apes.

O Distro lança agora dois EPs, que juntos formam um trabalho completo, chamado Chocolate With Pepper. O primeiro, chamado Chocolate contém três canções e apresenta uma veia quase Hard Rock, onde podemos notar certa aproximação com algumas de bandas atuais como o Wolfmother e The Hellacopters. O segundo disco já se aproxima mais do Indie Rock, e tem uma pegada mais próxima de Pavement, Yo La Tengo e Dinosaur Jr. Ambos os cds apresentam uma bela arte - de criação de Gustavo Rocha - e estão em um case de papel muito bem trabalhado.

Fazendo uma avaliação em separado de cada um dos discos, é difícil dizer qual dos dois é o melhor, pois ambos são bastante regulares, e possuem características muito próprias. O ponto negativo talvez seja uma certa similaridade entre as faixas, o que torna o trabalho um pouco menos interessante do que poderia. No Chocolate, o destaque vai para o trabalho de guitarras, que apresenta bons timbres sujos belos riffs em todas as faixas. O trabalho de vozes também ganha destaque pela diversidade de melodias, em especial na segunda faixa Little Lion, que talvez seja a melhor dos dois discos. Porém, a qualidade das vozes oscila um pouco e talvez Rafaum e Vinícios tenham que distribuir melhor as passagens de acordo com as qualidades de cada um.

No Pepper, o direcionamento sonoro muda, e cai no Indie Rock. Tirando a vinheta desnecessária, Cold Blood, a faixa que inicia o disco é muito boa, soando bastante como um Pavement com um pouco mais de peso. Aqui, as linhas de guitarra e a melodia são o destaque. A faixa que fecha o play, Surprise Box, fecha o disco flertando com o Grunge, dando a este trabalho um certo clima rock de garagem de meio dos 90.

O Distro mostra bastante maturidade e ousadia com os lançamentos de Chocalate e Pepper, em especial, pela proposta e formato. Com bastante atenção aos detalhes e a produção, o trabalho todo apresenta um alto nível musical e profissional. Falta aparar algumas arestas, como a oscilação na qualidade do vocal e nas composições. Mas qualidade, o Distro tem de sobra. Esperamos um visita da banda para cá para que a gente possa cobrir um show e conferir a performance ao vivo dos caras.


Para ouvir mais do Distro, clique aqui.

7/26/2009

Calistoga - Still Normal


O Calistoga vem do Rio Grande do Norte, da cidade de Natal. A banda é formada por Dante Augusto, Gustavo Rocha, Henrique Rocha, Rafael Brasil e Daniel Araujo. Juntos desde 2002, o Calistoga executa um som de bastante peso e com bastante influência de At The Drive In, mas que também passa por referências de bandas da cena stoner, como o Queens Of The Stone Age e o Kyuss. Estas influências só enriquecem o som do Calistoga, que apresenta uma identidade bastante única nas composições. Na estrada já a algum tempo, passaram recentemente em São Paulo para um show matador no Outs, no sábado dia 25 de julho.

O EP Still Normal é o último registro do grupo e foi totalmente gravado e mixado pela própria banda, apresentando um excelente timbre de guitarras e um bom balanceamento no nível dos intrumentos, tornando a audição bastante clara mas sem abrir mão do peso. O esmero artístico da bolacha chama a atenção, e foi de autoria de Rodrigo Bonfim.

Indo para as canções, vemos uma boa evolução no entrosamento e na dinâmica das músicas. O EP todo apresenta ótimas composições e arranjos, apresentando um nível bastante regular entre as faixas. Particularmente, tenho dois destaques: a segunda faixa, Accepted Crime, bastante direta, com vocais bastante gritados e um excelente refrão; e a última, Blessed With a Curse, a última do disco, com passagens experimentais e excelente trabalho de voz e cozinha.

Talvez seu único ponto negativo seja uma certa incostância quanto a uma definição mais clara da banda sobre o direcionamento musical do grupo. Em alguns momentos, a banda apresenta dois pés fincados em um som bastante pesado e experimental, porém, podemos perceber passagens onde esta percepectiva não está tão segura. Ao vivo, o som do Calistoga não é nada menos que matador, e a identidade do grupo percepctivelmente está atrelada a suas apresentações ao vivo.

Um disco muito maduro, com excelente produção geral e com músicas incríveis, que ao vivo, ainda ganham em peso e atmosfera. O Calistoga é com certeza, uma das melhores bandas em atividade no país no tipo de som que executam.


Para ouvir mais, clique aqui.

7/23/2009

Show Deriva, Desvio ou Deturpação - Pré-lançamento do disco Manual de Como Não Fazer

Show de pré-lançamento do álbum Manual de Como Não Fazer no Espaço Impróprio, dia 19 de julho. Clique por Thiago Zati.







A chuva de hoje à tarde




Caiu a chuva. Eu dei alguns cliques.

Fotos por: Thiago Zati

7/20/2009

Deriva, Desvio ou Deturpação - Manual de Como Não Fazer


A banda Deriva, Desvio ou Deturpação é de São Paulo e conta hoje em seu line-up com Viny (vocal), Bruno (Bateria), Felipe Nóia (Guitarra), Diogo (Baixo) e Snorks (Guitarra). A banda foi formada em 2004 e já haviam gravado um EP de forma independente intitulado Quem Ganha com Isso?, com material antigo e remixes de gravações ao vivo, e que teve distribuição gratuita através da internet.

Lançam agora o seu disco de estréia: Manual de Como Não Fazer. A primeira coisa que salta os olhos é a produção gráfica: belíssima, de autoria de Arnaldo Mike Ribeiro, com projeto gráfico de Marina Moura.

Ao colocarmos a bolachina no play, o que ouvimos é um conjunto muito coeso de composições de características muito próprias. Flertando com o rock de garagem, com o jazz-rock, coma música brasileira, e centenas de outras influências (como o drone e o indie), o Deriva produziu um estilo muito próprio e sua música. Tanto é assim que é difícil encontrar um destaque no disco, pois todas as suas músicas possuem características muito singulares, mas que em nenhum momento tornam o disco presunçosamente chato. A complexidade, mudanças de andamento, nuances e dissonâncias veêm com uma naturalidade ímpar. É um disco para se ouvir de um fôlego só. Sem pular nenhuma faixa. Junto a identidade sonora, o Deriva prima por sua identidade artística e política: toda a temática do disco é permeada com reflexões sobre a sociedade contemporânea, com citações diretas a perspectivas teóricas como o situacionismo, o marxismo e o anarquismo. Inclusive, o disco terá distribuição gratuita através do MySpace oficial da banda.

Manual de Como Não Fazer é, sem dúvida, uma grande estréia de uma grande banda.


Para conhecer mais, visite o MySpace do Deriva clicando aqui

Objetiva e obturador - Pequeno manuscrito de viagem


Olhando do alpendre pintado todo de lilás, eu tento ver uma certa relatividade no passar do tempo que só é possível de ser vista em momentos como este. Aquele incessante tic-tac do relógio aqui parece alcançar um ritmo diferente, um outro som. Tudo é mais lento, quase fugaz. Nenhum carro, nenhum barulho.



De repente, uma criança. Passa. O som de um existir que quase não existe na velocidade. O boteco na esquina continua cheio. Homens, apenas. Uma, duas, três cervejas. Uma cachaça. Duas. O mercado vazio. A menina da venda da esquina com um vestido vermelho. As prateleiras e seus produtos enfileirados. A mercearia. A igreja e a praça, onipresentes. O ponto de ônibus e seu banco. A tinta que descasca e a mancha de água-ferrugem que desce da parede. A rua e seus hexágonos de pedra que formam, em seu indistinto encaixe, o serpentear das ruas e suas quadras.



Estar no interior é uma experiência quase surreal. Para mim, acostumados com o ritmo frenético das grandes cidades, estar longe de casa pode significar simultaneamente o paraíso e o inferno. Viver em câmera lenta é algo que não estou acostumado. Enfrentar horas de “não fazer” é agonizante. Viver a incerteza da certeza de nada acontecer é frustrante. Sinto algo como um comichão. Uma coceira. Tenho que fazer alguma coisa. Acho que é isso. É muito difícil assumir para si mesmo que não a nada o que fazer, apenas a espera. Lembro de Godot.


O que me restou nesta quase uma semana foi o registro. A fotografia ocupou estes dias. E pela objetiva, busquei este movimento, ou melhor, este “quase-movimento”. É nesta ausência que procurei montar estas imagens. Tentar transformar esta percepção em imagens foi meu passatempo. Passatempo, sem qualquer intenção artística ou profissional.


Mas esta questão aliou-se a outra, um pouco mais profunda. A da memória afetiva. Estar aqui é de certa maneira me reencontrar com a infância perdida, ou melhor, esquecida. Estive aqui por alguns momentos, e estas memórias continuam presentes. Porém, ela existe enquanto um distanciamento, como uma memória que está presente em minha mente, mas que parece pertencer a outro alguém, que já não mais existe. É aqui que percebo a minha percepção de tempo, e sinto o peso dos dez anos transcorridos desde a última vez que estive aqui. Assim, quase que consigo ver este meu tempo: definido e certo, com começo e meio, com passado e presente. Não há qualquer traço de relatividade metafísica, mas apenas a sensação de o que passou pode ser resumido em um suspiro. E toda minha história, que em alguns momentos foi vivida aqui, pode ser transformada em um lampejo de meio segundo.


O lugar em questão é a cidade de Joaquim Távora, cidade no norte do Estado do Paraná, lugar onde minha mãe nasceu e viveu até a adolescência.
Esta questão confundiu-se a outra de ordem técnica: para as fotografias, eu podia escolher entre uma máquina digital, e outra analógica. A digital me permitia a rapidez, a experimentação. Com a analógica, eu tinha a escolha, um instante, um momento. E aqui os meios se colocam enquanto dois lados de uma mesma moeda, mas que criam perspectivas totalmente opostas quanto a abordagem.


Nesta brincadeira, uma coisa tornou-se certa para mim: o registro do tempo é uma tarefa árdua. Mais ainda, a busca por um ponto comum entre o tempo deste existir (o tempo deste coletivo, que forma aquilo que chamamos de história), e o meu tempo particular (da minha vivência e da minha memória) tornou-se o meu enigma. E eu, no meu amadorismo, encarei este problema de maneira consciente só depois que apertei o obturador, e vejo as imagens no computador e no filme.


Apontar e ajustar o foco, capturar um momento, e transformar este instante em algo que tenha significado para um referencial de um amplo espectro de tempo e ao mesmo tempo para mim pareceu impossível. Mas de alguma maneira, alcancei um resultado. E é neste que busco algum sentido. O final está em aberto.


Aperto de botão e texto: Thiago Zati

7/16/2009

Esses dias pertecem a Alexis

No final do ano passado, durante as manifestações contra o posicionamento conservador do parlamento grego, e suas reformas trabalhistas e previdenciária e a privatização de uma das mais importantes empresas de transporte aéreo (lembremos que o turismo impulsiona grande parte da economia grega), um acontecimento impulsionou o movimento e causou comoção mundial. A morte do jovem Alexandris Grigoropulus, de apenas 15 anos, assassinado pela polícia no bairro popular Exarchia, em Atenas.
O documentário "The potentiality of storming heaven" relata os acontecimentos na grécia e presta uma homenagem à Alexis, como ficou conhecido como símbolo de resistência do movimento.
Segue abaixo um vídeo homenagem da banda Deriva, Desvio ou Deturpação, a este martír que assim como Carlo Giuliani assassinado em Gênova, nas manifestações contra o G8 em 2001, perderam suas vidas acreditando que um "outro mundo é possível".



7/09/2009

Sangue Negro


“There Will Be Blood”, filme que aqui no Brasil foi exibido com o nome Sangue Negro, é grandiosidade do começo ao fim. Essa grandiloqüência transborda pelas amplas tomadas á céu aberto, com a aridez amarelada e captadas pela excelente fotografia, ganhadora do Oscar. Aliás trilha (de Jonny Greenwood do Radiohead) e foto tem perfeita simbiose, comungando em excelente diálogo de som e imagem. A grandiosidade não é expressa simplesmente nesses fatores técnicos, ela vem também de um ótimo roteiro. A história é baseada em “Oil”, livro de Upton Sinclair que aqui ganhou o nome de “Petróleo!”. Além de ter sido um dos grandes escritores americanos do começo do século XX, sensível as transformações cada vez mais rápidas do século nascente, Sinclair foi também um esquerdista. Dessa posição política vem uma argüição no trato do “homem comum”, dos operários e desvalidos sociais. Um traquejo de entender os que sofrem ou são feitos párias pelas mãos do Estado, ou de patrões ou do que quer que faça um ser humano explorar outro. Ele próprio de origem humilde, sofreu as agruras da pobreza e fez dessas memórias e cicatrizes material de sua obra, na mesma tradição de grandes autores como Jack London, John Steinbeck e outros.

Voltando ao filme de Paul Thomas Anderson, “There Will Be Blood” o título, funciona meio que um alerta nostradâmico, um aviso do que virá á baila da ganância humana. O sangue negro jorra de terras áridas, pertencentes a pessoas tão áridas quanto, seja de sua miséria ou desesperança. O sangue vermelho também dá as caras misturado ao óleo, com a lama das perfurações como uma metáfora da tragédia e do aceleramento das transformações humanas no tempo. É a jornada de Henry Plainview ex mineiro de prata e seu filho HW.As duas personagens personificam a luta para fugir da miséria econômica e seu encontro com a miséria moral. Daniel Day-Lewis faz jus ao Oscar (se é que essa premiação significa alguma coisa) mas em seu couro e carne, o personagem se torna real, sarcástico, cínico, psicótico e com um punhado de outras características bem humanas, ainda que prevaleçam justamente as mais condenáveis. O ator tem seus méritos obviamente. Porém, creio que a literatura de Sinclair conseguiu romper a barreira limitadora de uma composição carregada de um tipo de crítica, compondo personagens mais que bidimensionais, mais profundos e elaborados em complexidade de psiquê, dando base a Day-Lewis para compor uma interpretação cheia de trejeitos e maneirismos. Um homem que é a cara de uma época e lugar. Que quando chora nos põe em dúvida se por perdas sentimentais ou financeiras. E fazendo jus ao seu nome, que tem a “visão plana”, de farejar e maquinar em prol de seus objetivos.

Outro grande destaque do filme é Paul Danno que por boa parte do filme interpreta o jovem pastor Eli Sunday. Sua primeira aparição é como o irmão gêmeo Paul, que deixa a família para tentar a sorte noutro lugar. A narrativa leva Henry Plainview, para essa localidade remota da Califórnia, numa corrida contra concorrentes, atravessadores e falsários. À partir da entrada de Eli o filme desenvolve (pelo menos a meu ver) algumas discretas metáforas sobre o sagrado, sobre a fortuna e a perdição. Impressionante como numa cena de um dos cultos de Eli, a voz elevada, catártica de sua audiência repete uma frase, para que nós ( a verdadeira audiência) saquemos o trocadilho dos nomes. Beirando a histeria se ouve: “It´s Eli! It´s Eli!”, que me perdoe se erro, mas soa “It´s a lie” (É uma mentira). A narrativa também cínica, coloca um rebanho que julga sem consciência seu pastor.

Paul Thomas Anderson marca aqui um grande ponto em sua carreira. Se muita gente lembrava-se dele apenas por “Magnólia” (o primo mais novo de “Short Cuts” de Altmann), agora terá um obra maior como referência. Sua marca esta presente no conflito de pessoas, que parecem escapar dos fios do destino, mas mesmo assim, ficam soltas e perdidas no mundo imenso que parece não dar conta dessa existência. Mesmo que erre ele cumpre uma função interessante, de produzir boas histórias, muitas vezes com um refinamento grande de roteiro e desenvolvimento de personagens (seja uma exército deles como em “Magnólia” ou mais econômico como em “Sangue Negro”), mostrando que é possível no cinema americano lidar com tempos e locais distantes, de uma forma minimamente verossímil. Ainda mais, que uma fábula moderna pode dizer muito sobre o povo que representa, e ser universal em mostrar talvez qualidades tão humanas quanto o amor, a virtude, embrulhadas em cobiça, mentiras e competição.


7/07/2009

Henrique Oliveira


O paulista Henrique Oliveira, 36, utiliza-se do descartado para impressionar. Suas instalações, grandiosas, usam em geral madeira descartada pela cidade de São Paulo, cera de abelha e PVC. O artista já expôs em diversos museus e galerias por aqui, como o Centro Cultural São Paulo, Centro Cultural Banco do Brasil e o Itaú Cultural. A estética de suas instalações encantam muito mais do que suas pinturas: a junção de milhares de pedaços de madeira organizados de maneira amórfica aproximam-nas às pinturas expressionistas, onde cada madeira se torna a pincelada, com a mesma força e ritmo em harmonia. Formas pontiagudas que protuberam pra fora das paredes, ou mesmo sobreposição de massas arredondadas que me fazem lembrar dos minutos finais da grande animação Akira, de Katsuhiro Otomo, onde Tetsuo perde o controle pelo poder que tem e torna-se um amontoado de carne e vísceras, cresendo descontroladamente. Sem dúvida, um novo capítulo e combustível para a fraca arte contemporânea brasileira.







Mais do belíssimo trabalho de Henrique aqui.

-TC-

O Epitáfio de McNamara


Em Sob a Névoa da Guerra, Errol Morris buscava a antítese de McNamara. Servindo na Segunda Guerra Mundial e tendo posição ativa no planejamento do bombardeio aéreo norte-americano ao Japão, McNamara logo escalou a pirâmide burocrática do Estado, chegando a servir como Secretário de Defesa dos Estados Unidos de 1961 a 1968 e atuando como presidente do Banco Mundial de 1968 a 1981. Teve, durante anos, acesso ao botão para o holocausto nuclear. Planejou centenas de ações do exército norte-americano e orquestrou boa parte da Guerra Fria. Foi a mente por trás do Vietnã. Era o protótipo do homem de Estado perfeito: astuto, sigiloso, organizado, brilhante. Nada parecia abalar o resultado de equações tão bem balizadas na razão. Assim, McNamara parecia indestrutível, irrefreável. Senhor do tal “compexo-militar-indústrial” citado por Dwight Eisenhower.
Mas Morris tinha uma pulga que não lhe deixava dormir. A névoa, o fog. Àquele, característico de Londres, que não nos permite distinguir as formas ou as cores e deixa tudo cinza. Com esta idéia, buscou o McNamara que nem o próprio conhecia, aquele que só podia ser entrevisto em uma ou duas trocas de olhares, ou num respirar fundo em entrevistas e coletivas.
Morris então montou uma câmera num tripé, colocou uma cadeira confortável e chamou McNamara para conversar. E então, o vacilante McNamara apareceu. Aquele que podia errar, que se arrependia, que titubeava. McNamara podia falar, livre das câmeras de TV, livre da imprensa, livre do compromisso com o Estado. Sem estar com as costas arqueadas pelo peso do mundo. Alí quase chorou. Pode se despir, ficar nu, tornar-se o que é. P É então que a mágica acontece: podemos ver um homem frente a suas escolhas. E tendo - porque não? - justificá-las.
O que fica não é o perdão, mas a certeza de que até aqueles que precisam ser infalíveis falham, e que a razão é a primeira a cair quando desce o véu racionalidade infinita. Todos morremos, e exatemente por isso não podemos esquecer. Que seja feita e refeita a história.
McNamara morreu, e Sob a Névoa da Guerra é seu epitáfio.


Apes Listen! Te Voy a Quebrar/ O Cúmplice - Split CD




Saiu o Split. Te Voy a Quebrar e O Cúmplice, juntos. Duas bandas relativamente novas, porém com membros mais que escolados no cenário da música pesada. E é isto que faz desta bolachinha algo tão importante. Ela é um registro mais do que merecido para duas grandes bandas do underground, que apresentam um trabalho de excelente qualidade. Neste compacto as duas bandas dividem pouco mais de meia hora para mostrarem a que vieram. O Te Voy a Quebrar é do Rio de Janeiro e atualmente conta com Alejandro Sainz de Vicuña (voz e guitarra), Pedro Junkieira (guitarra), Bruno Pavio (baixo) e Felipe (bateria) fazem um som que flerta com o stoner, trazendo grande influência do onipresente Black Sabbath nas composições. O primeiro destaque vai para a a faixa “The Colour of Space”, uma grande composição Stoner, com um riff grudento de guitarra e excelente andamento baixo-bateria. “La Raza Errante” - um quase-Trash Metal - é outra grande música, que conta com uma excelente linha vocal e um riff de guitarra que preenche quase toda a duração da música. Já O Cúmplice conta com Marcelo (voz), Cauê (guitarra), Alessandro (guitarra), Karen (baixo) e Luiz (bateria). Formada por amigos e ativa desde 2006, a banda faz um misto de Hardocore, Stoner e um pouco de Doom. No gravação, se sobressaem as guitarras de Alessandr e Cauê que desfiam riffs belíssimos, ora cadenciados, ora mais velozes, mas sempre com peso na medida, e com bastante melodia. Marcelo prima pelo vocal, rasgado, porém com uma incrível interpretação. Nesta parte do split, duas canções se destacam: “Canção do Carrasco”, pelo incrível trabalho de guitarras, e “Ossos para os Cães”, pela atuação de Marcelo nas vozes e na letra. Disco imperdível para os ouvidos atentos para aqueles que procuram o que melhor está sendo feito música pesada. Lançamento exclusivo pelos selos Asa Negra, Kaska Krosta Rock Mutante e Back on Track.

Para conhecer mais:

O Cúmplice

Te Voy a Quebrar

7/05/2009

Michael Jackson. Queimando como fogos de artifício.

Por: Tom Arsênio


Por que o espanto? Michael Jackson deveria morrer!!! É o mínimo preço que se paga por ser imortal. MJ não morreu por problemas de saúde, pela imprensa marrom ou seu sádico pai – isto é irrelevante. MJ morreu porque a existência do Gênio é insuportável. Não é coincidência que entre para o deslumbrante céu daqueles que morreram cedo demais por não agüentarem o peso de seu próprio brilhantismo. Não importa em que aspecto sua existência seja máxima, o Gênio sempre tenta se derivar em algum sentido seja bebendo, seja cheirando, seja transando, fugindo sempre de si mesmo, pois seu espírito não agüenta o tédio de estar dentro do mesmo corpo.

MJ morreu porque é o preço que se paga por destruir a Cultura de seu tempo. Destes, talvez o único que se mantém em pé aos trancos e barrancos seja Dylan. De resto, Presley, Joplin, Hendrix, Lennon, Kobain, Monroe e Chaplin não duraram muito.

MJ era o Gênio sem rosto. Nunca foi definido, pois não tinha uma especialidade, era a arte fantástica, o artista completo, o canto de um passarinho e a dança firme e perfeita, a produção irretocável, e a harmonia correta. A melodia era rápida demais para conseguir sintetizar tudo isto.

Para MJ não importava se era Branco ou Negro. Desde que nasceu, naquela família simples em Gary, com trocentos irmãos, uma mãe doce e um pai frustrado. MJ era assustador, ninguém era capaz de dizer o que diabos era aquele garoto fazendo o que Sinatra era incapaz. Que voz era aquela que Brown não tinha? Na sua maioridade Michael mudou o Soul, mudou a Disco, mudou o Rock e criou o Pop mesmo cantando ‘A Capella’.

Sua obra foi pontual. Seus álbuns solo foram curtos e grossos, sua produção crescia fora disso e lá onde estava seu sucesso, sua genialidade ultrapassava o Estéreo e atacava o Multimídia. Mesmo assim, se sua carreira foi decadente como dizem os críticos (que só prestam para contradizer o original), seu pior álbum ainda supera o melhor que o príncipe copião Timberlake fez. Invencível.

Sua personalidade não interessa, MJ é o Gênio da Inocência. Visto que Freud não era capaz de passar um dia sequer sem cheirar a calcinha da irmã, Nietszche era um doido varrido atrás da saia da prima, Van Gogh arrancou uma orelha para entregar ao seu amor e Kant só escreveu aquelas coisas todas porque era um muleque que nasceu e morreu num vilarejo sem nunca ter visto uma boceta na vida.

MJ foi perigoso. Rompeu com a supremacia branca na indústria cultural, não dava entrevistas, não suportava empresários e patrocínios e só se importava com os fãs. Cantava em nome do respeito, em direção à África, da infância que não teve, da sensibilidade à natureza e aos excluídos.

MJ foi cedo demais e este é o dever dos Gênios, já que vivem como os fogos de artifício - Morrem cedo e seus momentos são eternos. Como todos os outros citados, seu corpo não suportou a ambição de alcançar o que alcançou e quis mais, porém o quis em desespero. MJ deixa as pistas de dança sangrando. É isto.

7/02/2009

In Edit Brasil - Festival de documentários musicais.


Está rolando em São Paulo o festival de documentários musicais In Edit Brasil.
A divulgação do evento não está lá essas coisas, por isso as salas estão quase sempre vazias, mas vale muito a pena conferir a progração que inclui filmes como:

New Orleans - Music in Exile
American Hardcore - The history of american punk rock

Public Enemy - Welcome to the Terrordome

Terreiro Grande
Recife Beat

Sigur Rós - Heima

Guidable - A verdadeira história do Ratos de Porão


Entre muitos outros!

Confira a programação aqui.

7/01/2009

Estamira


Estamira é um documentário de narração. Uma oralidade que flui da boca da narradora que dá nome ao filme. Que emerge como que em contorções de sua memória, marcada por tantas feridas da vida. O que ela conta dá um tipo de foco fantástico e alegórico ao que se vê nas imagens. Palavras, filosofias, histórias, aforismos, citações, fundem-se ao ambiente de seu dia a dia. A voz envelhecida, as vezes calma, as vezes gritada, traça falas que pendem entre o agudo da crítica, ao fantasioso mais profundo dos loucos. A voz de Estamira pode ser a voz de qualquer um tido como “insano” ou mentalmente perturnado, que perambula pelas grandes metrópoles. Que se torna paisagem sem ser percebido por aqueles se deixam dopar pelo dia a dia. Ao mesmo tempo sente-se entre suas frases, um tom de sabedoria, como um tipo de xamã, daqueles que transcendem o plano de nossas questões de quotidianas. A voz do “invisível social” que a tudo vê e percebe, e depois profetiza.

Vemos Estamira perambular entre montanhas de lixo e dele tirar sua sobrevivência. O enorme aterro sanitário carioca parece um tipo de paisagem lunar. Impossível não lembrar de “Boca de Lixo” (1992) de Eduardo Coutinho. Mas aqui o foco é outro. Se Coutinho buscava resgatar um tipo de dignidade, um orgulho de ser e de ter uma personalidade, ou ainda apresentar uma série de ambigüidades na ultima ponta da sociedade do consumo, o diretor Marcos Prado está interessado em ouvir. Não se percebe pela montagem, nada mais que uma forma de ouvir Estamira. Ela é quase um arauto, falando quase tudo em tom oracular. Não se busca uma “problemática”, o que não vem a ser um defeito. Nesse ouvido aberto, o diretor transmite respeito. Algo solene de compromisso e cumplicidade entre diretor e personagem. A história é construída não só por quem a narra, mas na interação de quem está lá para ouvi-la e captá-la. Aos poucos aparecem outros personagens. É quando a dualidade loucura/lucidez fica mais complexa, pois a narração de Estamira contradiz a insanidade que lhe apontam. Ela tece comentários profundos e justificativas. Me pergunto, quem mais que o miserável, pode negar a Deus e sua existência, diante da face do próprio?




Marcos Prado vem da fotografia. E esse background fica estampado diante de nossos olhos, de forma magistral. O filme mescla imagens coloridas, com outras em preto e branco. Boa parte dele em um granulado preto, branco, cinzento de variados tons que exalam desesperança. Aliás lindíssimas imagens que se juntam perfeitamente a narração e a espetacular trilha sonora. Urubus em vôo lento, nuvens carregadas, ventos enfurecidos, chuva, corpos humanos magros e não identificáveis na paisagem, decomposição e luta por sobrevivência. O que nas minhas palavras aqui parece ser caótico, na composição áudio-visual do filme está no local certo, na medida. Apesar de seus méritos o filme tem um tom de fetichização da miséria, que de alguma forma me incomoda. Não sei apontar também como fugir a isso. Prado não deve ter tido a intenção de fazer um “filme-denúncia”, mas como um Sebastião Salgado deixou belo o retrato da destruição e da dor. E para além de meu incômodo, é uma vitória. Não é e nunca será um crime, pois cumpre também uma função humanizadora. Faz com que, o que é tido como delírio de outro, pode ser a mais sábia das falas. Que decodifica os sinais de seu mundo e os resignifica. Derrubando as certezas de um mundo tão incerto, que se tem como racional.
Título Original: Estamira
Gênero: Documentário
Tempo de Duração: 115 minutos
Ano de Lançamento (Brasil): 2006
Site Oficial: www.estamira.com.br
Estúdio: Zazen Produções Audiovisuais
Distribuição: Riofilme / Zazen Produções Audiovisuais
Direção: Marcos Prado
Roteiro: Marcos Prado
Produção: Marcos Prado e José Padilha
Música: Décio Rocha
Edição: Tuco